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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vontade de ter um filho forma parcerias


Vontade de ter um filho forma parcerias
Por ABBY ELLIN

Rachel Hope, 41, tem 1,75 m de altura e gosta de ioga, dança e artes marciais. Corretora imobiliária e jornalista free-lancer em Los Angeles, ela procura um homem que more perto dela, seja saudável, tenha boa forma física e seja "bem resolvido financeiramente", em suas palavras. Parker Williams, 42, é fundador da empresa de leilões de caridade QTheory e parece ser um bom candidato. Com 1,90 m, Williams é ex-modelo, gosta de animais, pratica esportes e é tranquilo, carinhoso e organizado.
Nenhum dos dois está interessado num relacionamento romântico. Mas ambos querem um filho. Por isso, eles estão discutindo seriamente a possibilidade de ter e criar um filho juntos. Não vem ao caso o fato de Parker Williams ser gay, nem que os dois só se conheceram em outubro passado, quando se encontraram no site Modamily.com, voltado para pessoas que procuram outras com quem possam ser pais ou mães.
Williams e Hope fazem parte de um novo tipo de pessoas que procuram pares on-line -pessoas que estão à procura não do amor, mas de um parceiro com quem construir uma família. Nos últimos anos, surgiram várias redes sociais dedicadas a ajudá-las, como a PollenTree.com, a Coparents.com, a Co-ParentMatch.com e a MyAlternativeFamily.com, além da Modamily.
"Enquanto algumas pessoas optam pela chamada 'produção independente', outras analisam as pressões de horário, os problemas financeiros e a falta de um parceiro emocional e decidem que criar um filho sozinho é trabalhoso demais e não faria bem nem para elas nem para a criança", contou Darren Spedale, fundador do site de parcerias Family by Design. "Se você pode compartilhar o apoio e os altos e baixos com outra pessoa, essa é uma opção muito mais interessante para a criação dos filhos."
Os sites propõem algo que pode parecer uma alternativa interessante à barriga de aluguel, à adoção ou à simples doação de esperma. Dawn Pieke, 43, é gerente de vendas em Omaha, no Estado de Nebraska. Sua filha, Indigo, nasceu em outubro. Ela conheceu o pai de Indigo, Fabian Blue, em junho de 2011 numa página do Facebook da Co-parents.net. Pieke tinha medo de ter um filho sozinha, pois, explicou, "eu mesma cresci sem meu pai". Ela queria alguém com quem pudesse dividir as dificuldades da criação de um filho.
Fabian Blue contou que antes tinha pensado em adotar. "Mas achei que ninguém deixaria um gay solteiro adotar uma criança", explicou. Pieke e Blue se conheceram pessoalmente no Dia de Ação de Graças de 2011. Em seguida, leram os registros médicos um do outro e submeteram-se a exames de fertilidade. Blue mudou para um quarto na casa de Pieke. "Quatro semanas mais tarde, ele me entregou uma amostra de sêmen, a gente se abraçou, e eu fui para o meu quarto e me inseminei", conta Pieke.
Os dois não chegaram a redigir um acordo legal e concordam que isso foi pouco sensato. "Há tantas coisas em que eu não pensei. Por exemplo, até onde vai minha responsabilidade financeira? O que acontece se eu perder o meu emprego? E se ele perder o dele?"
As leis relativas às parcerias parentais variam de Estado para Estado americano. Em 2008, um tribunal do Novo México decidiu contra um doador de esperma que tinha concordado em pagar certo valor a título de pensão alimentícia do filho, mas se negou a continuar quando o valor subiu.
No ano passado, um tribunal da Califórnia decidiu em favor de um doador de esperma texano processado para que pagasse pensão alimentícia.
Mesmo um documento legal nem sempre tem força de lei. "Os tribunais irão se pautar pelo que melhor atender aos interesses da criança", explicou o advogado Bill Singer, de Belle Mead, em Nova Jersey.
Colin Weil e a mãe de sua filha de dois anos, Stella, redigiram um contrato antes de a mãe engravidar. Weil, que tem 46 anos e é gay, conheceu a mãe de Stella, que pediu que seu nome não fosse divulgado, em outubro de 2009 por meio de um amigo mútuo. Hoje Stella passa uma noite por semana com Weil, e o plano deles é que o número de noites aumente.
"Quando você pensa no conceito de aldeia e de como a aldeia fez parte da criação dos filhos em tantas sociedades, por tantos milhares de anos, isso faz todo sentido", comentou Weil. "A ideia de que duas pessoas -o que dirá uma- crie um filho sem o apoio da aldeia não faz sentido."
Mas Elizabeth Marquadt, diretora do Centro Matrimonial e Familiar do Instituto de Valores Americanos, um grupo não partidário em Nova York, discorda. "É uma ideia péssima, propositalmente obrigando uma criança a ser criada em dois mundos diferentes, com pais que nem sequer tentaram formar uma união amorosa entre eles."
Outros acham que as parcerias parentais poupam o filho da dor de um futuro divórcio. "Do meu ponto de vista como pesquisadora, não acho que um relacionamento romântico seja necessário para que haja um bom relacionamento coparental", opinou a professora Sarah J. Schoppe-Sullivan, da universidade Ohio State.
Essas parcerias também encorajam as pessoas a refletir e discutir uma filosofia de criação dos filhos com antecedência, algo que muitos casais tradicionais não fazem. Rachel Hope, que já tem dois filhos (de 22 anos e quatro anos) de relacionamentos coparentais anteriores, disse que encontrou apenas "homens cultos e desejáveis" quando buscou seu terceiro parceiro. "O importante é saber se poderemos nos relacionar, refletir com cuidado e tomar uma decisão lógica e racional para meus filhos futuros, que ainda não nasceram."


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 18 de fevereiro de 2013.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Atenção à classe média faz referência aos pobres desaparecer da campanha presidencial americana



Em sua apresentação do dia 7 de setembro em um simpósio sobre desigualdade em Yale, Alice Goffman, professora assistente de sociologia na Universidade de Wisconsin, falou sobre o inverno de 2011-2012, que ela passou morando em Detroit entre os muitos pobres. Goffman descreveu parte dos efeitos da pobreza extrema citando as palavras de uma moradora de Detroit, que ela batizou de “Marqueta”.
Seus dedos ficam lentos, sabe, o corpo todo fica mais lento. Você não consegue fazer muito, você tenta ficar com uma cara boa para as crianças, mas quando elas saem, você fica bem parada, coberta. É como se você se dobrasse no chão. Como se estivesse apenas esperando. Você não pensa muito… em novembro, seu estômago está gritando, mas em dezembro, você começa simplesmente a se desligar… Perto das três horas da tarde você se levanta para pegar as crianças. Liga os aquecedores para que a casa esteja quente quando chegarem.
Por trás das estatísticas, por trás da desolação na mais pobre cidade grande dos EUA, está um dos dilemas políticos mais intratáveis da nossa era: será que o Partido Democrata, o partido da esquerda, pode tratar da questão da pobreza no atual ambiente político? Ele pode falar de fome?
A fome cresceu fortemente desde o colapso financeiro de 2008, apesar de ter sido sentida fortemente por uma percentagem relativamente pequena da população. Em 2007, 12,2% dos americanos passaram pelo que o USDA (Departamento de Agricultura americano) chama de “segurança alimentar baixa”, e 4% caíram na categoria de segurança alimentar muito baixa. Em 2011, a percentagem dos que viviam com baixa segurança alimentar subiu para 16,4% e o número dos que viviam com segurança alimentar muito baixa subiu para 5,5%.
O USDA define “baixa segurança alimentar” como a falta de acesso “a toda hora a alimentos nutritivos suficientes para uma vida saudável e ativa”. Indivíduos com “segurança alimentar muito baixa” são definidos como aqueles que sobrevivem com muito pouca ou nenhuma comida “em certas partes do ano, porque a família não tem dinheiro e outros recursos para obter alimentos”.
Contudo, nos cálculos da política partidária contemporânea, os dados do USDA demonstram que a baixa segurança alimentar em 2011 foi um problema para menos de um em cada oito brancos –uma questão preocupante, mas, para muitos eleitores brancos, virtualmente invisível. A segurança alimentar muito baixa afeta as vidas de apenas um em cada 24 brancos. Já no caso dos afro-americanos, a baixa segurança alimentar é um problema que afeta um em cada quatro, e a segurança alimentar muito baixa, um em cada 10.
A questão da fome lança luz sobre a política mais ampla da pobreza. Os democratas concluíram que, para obterem votos suficientes no dia das eleições, não podem adotar posições de política que alienam os brancos da classe média. Na prática, isso significa que, durante a campanha, há uma ausência de referências explícitas aos pobres.
Os republicanos, por sua vez, acham que sua melhor chance de chegar à presidência envolve conquistar uma maioria decisiva dos votos brancos. O eleitorado de 2012 será provavelmente 72% branco, de acordo com uma análise dos números. Neste cenário, os republicanos precisam de ao menos 62% dos votos brancos para vencerem, e os democratas precisam de 38% ou mais dos votos dos brancos.
O papel que a raça passou a ter nas campanhas presidenciais ajuda a explicar um fenômeno recente na academia e no debate público: o quase abandono da tradição de expor a exploração dos pobres.
Matthew Desmond, professor assistente de sociologia em Harvard e outro palestrante no simpósio de desigualdade em Yale descreveram a longa história dos senhores de terra, dos financiadores e empregadores que se aproveitam do aluguel e do trabalho dos moradores de favelas. Desmond, então, questionou:
Se a exploração ajudou a criar a favela e seus habitantes, se há muito é uma causa clara, direta e sistemática da pobreza e do sofrimento social, por que então essa “palavra feia” – exploração - foi apagada das atuais teorias da pobreza urbana?
A pesquisa da pobreza urbana contemporânea, em vez disso, gira em torno do conceito da falta, argumentou Desmond. As teorias culturais enfatizam a falta de exemplos, de pais e de valores de classe média. Apesar de, em geral, se combaterem, as abordagens estrutural e cultural compartilham um cenário comum: que os bairros pobres são uma coisa vazia, necessitada e que, como suprimentos levados para uma colônia de leprosos, seus problemas podem ser resolvidos enchendo o vazio com mais coisas: por exemplo, mais empregos, mais educação e mais serviços sociais.
Essa abordagem resulta no seguinte engano: que aumentar o salário mínimo ou melhorar os benefícios sociais seria suficiente. Não é assim, diz Desmond, que passou meses estudando despejos dos pobres – negros e brancos - em Milwaukee: “Em um mundo de exploração, tal premissa está longe de evidente”.
Desmond defende a elevação do conceito de exploração para uma posição mais central dentro da sociologia da desigualdade. Para os que argumentaram que os pobres urbanos de hoje não são tão explorados como foram em gerações anteriores, foi preciso lembrar a aceleração dos alugueis durante a crise de habitação; a proliferação de lojas de penhores, cujo número dobrou nos anos 90; emergência das redes de financeiras, anunciando mais lojas nos EUA do que filiais do McDonald’s e que lucraram mais de US$ 7 bilhões por ano em tarifas; e a expansão colossal da indústria de empréstimos podres, que gerava mais de US$ 100 bilhões por ano em seu pico da bolha imobiliária. E ainda assim, tanto a abordagem estrutural quanto a cultural, abordagens convencionais da desigualdade, continuam a ver a pobreza urbana estritamente como resultado de certa futilidade. Como seriam diferentes nossas teorias – e nossas soluções políticas - se começássemos a ver a pobreza como resultado de uma espécie de roubo.
A apresentação de Desmond levanta outra questão: como seria diferente a política da nação se cada partido acrescentasse o conceito de exploração econômica ao seu repertório.
Não apenas arriscaria inflamar a questão da raça, mas colocaria em risco as fontes de financiamento de campanha das quais os dois partidos são dependentes. O setor de financiamento e seguro imobiliário é a maior fonte de dinheiro do Partido Democrata, com US$ 46,3 milhões nas atuais eleições, e para o Partido Republicano também, com US$ 67,7 milhões.
Essa dependência efetivamente exclui a exploração como tema para qualquer dos partidos desenvolver.
Mesmo que a polarização ofereça escolhas mais claras ao eleitor, questões urgentes continuam vetadas. Pobreza e fome foram tiradas da agenda.
A libertação de contribuição por parte dos interesses privados – em nome dos direitos da Primeira Emenda - de fato restringiu a liberdade de expressão de questões relativas àqueles que estão em desvantagem. Ela dá poder àqueles cujo objetivo é coibir a legislação de proteção ao consumidor, deter impostos mais progressivos e combater insurgências populistas.
Essa deturpação das chances em favor dos ricos acontece em uma época em que o Partido Democrata já está inibido por ser acusado de fomentar uma “guerra de classes” e de usar “a questão da raça”. O resultado tem sido uma transferência incansável do centro político da esquerda para a direita. Os dois mais recentes presidentes democratas, Bill Clinton e Barack Obama, perseguiram plataformas bem dentro desse terreno limitado. Há pouca razão para crer que Obama, se vencer em novembro, terá força para avançar muito mais em um território que os democratas praticamente abandonaram.
(Thomas B. Edsall, professor de jornalismo da Universidade Columbia, é autor do livro “The Age of Austerity: How Scarcity Will Remake American Politics”, ou “A era da austeridade: como a escassez vai reformar a política americana”, publicado no início do ano)
Texto de Thomas B. Edsall, para o The New York Times. Tradutor: Deborah Weinberg

Reproduzido no UOL

terça-feira, 29 de março de 2011

Bye-bye, Liz

Bye-bye, Liz!


ASSIM QUE A morte de Liz Taylor foi anunciada, Raffaella Perucchi, artista e amiga querida, postou uma pergunta no meu Facebook: "Sua mãe ainda tem aquele "foulard" que a Liz deu a ela?"
Liz Taylor foi a maior de todas (embora Ava Gardner tenha sido mais bonita), símbolo absoluto do cinema do início ao fim da carreira.
As safiras que tinha no lugar dos olhos tornavam impossível qualquer conversa objetiva com ela, isso eu pude constatar pessoalmente. Sua voz era hipnotizante, sua simpatia convidava a uma festa, a mulher era um colosso. Mesmo pré-adolescente eu já conseguia sentir o peso da sua sensualidade.
Respondendo à pergunta da Raffaella, sim, minha mãe ainda tem o lenço de seda da Hermès que ganhou de Liz Taylor, nas cores branca, azul, bege e amarela. Acho que vou pedir que ela o deixe em testamento e um dia, quem sabe, eu não o converta em doação na luta contra a Aids, isso seria chique, que tal?
Nas primeiras vezes que cruzei Liz Taylor, ela ainda estava com Burton. Teve uma ocasião em que minha irmã e eu presenciamos uma briga entre os dois, na porta de um restaurante chamado Olden, em Gstaad, na Suíça, onde Liz era nossa vizinha e eu passei boa parte das férias da infância.
A cena foi um show. O dois praticamente secaram a adega do restaurante e, na hora de ir embora, trocaram catiripapos na calçada. Pena que não existisse celular para registrar o bailado.
Richard Burton não segurou a onda. Era um beberrão, sim, mas isso não quer dizer que estivesse disposto a viver tão intensamente.
Para Liz, naquela época, sentimentos eram multiplicados por zilhão. Ela tinha uma PA (personal assistant) chamada Chen que era mais exigida do que o anjo da guarda do Fernandinho Beira-Mar. Mulher fantástica a Chen, personalidade forte, era obrigada a monitorar os humores da atriz de perto a todas as horas do dia.
Richard Burton picou a mula com Suzy Hunt, mulher do campeão de F-1 James Hunt. Muito boazinha ela, com pinta e agilidade mental de modelo, foi contar a novidade de que iria deixar o piloto para ficar com um homem "muito famoso" em um nervoso chá das cinco com minha irmã Kika (sempre ela) no hotel Palace. Não sei, mas acho que dramas de estações de esqui são bem mais densos do que questões ocorridas em balneários. Creio que tenha a ver com os espaços fechados.
Liz levou anos e tonéis de álcool para se recuperar. Filhos e animaizinhos de estimação não arredaram pé, todos ali juntos no mesmo mafuá, em formação Tenenbaum de família disfuncional.
Minha mãe lembra especialmente de um gato preto, que era xodó. "Ela fazia questão de acariciar o gato com a mão em que usava o anel que ganhou de Burton", conta. Estamos falando do brilhante Krupp, de 33,4 quilates, que entrou para a história do romance no mesmo patamar de importância da adaga que matou Julieta.
Depois disso, Taylor casou-se com o senador republicano John Warner, um tipo capaz de deixar Sarah Palin parecendo Lênin, e que ressurgiu das trevas nos últimos anos para defender Bush e Cheney.
Deve ter sido uma tentativa da atriz de se enquadrar. Eu nunca vi, mas me contam que ela ficava muda na mesa em jantares na sua casa fazendo papel de gueixa, enquanto John parlamentava sobre política.
Durante esse casamento, Liz em nada lembrava a mesma pessoa que namorou o Peter, amigo do nosso professor de esqui, cujo blazer certo dia amanheceu todo rasgado. Queria ver a Gwyneth Paltrow ser capaz de paixão assim.



Isso é que é “high society”!...