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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Predominantemente budista, Mianmar é uma nação marcada por histórico de repressão

Há cinco anos, quando Mianmar ainda estava sob regime militar, alguns amigos ocidentais e chineses me perguntaram como podia haver tamanha opressão em um país onde o budismo, que prega a não violência, é a religião predominante.

Eu estava em um exílio autoimposto na época, estudando jornalismo na Universidade de Hong Kong, e eu respondia que os líderes militares do país eram imorais, budistas apenas nominalmente. Eu também apontava que os governantes monárquicos pré-coloniais de Mianmar –também budistas apenas da boca para fora– também cometeram grandes crimes.

Em outras palavras, não havia nada de errado com a religião em si; o problema era dos políticos que zombavam dela.

Mas não posso dar mais essa resposta – não desde os recentes ataques mortais por budistas contra muçulmanos em Meikhtila, uma cidade na região central de Mianmar sem história de violência sectária. Os relatos de que monges instigaram alguns dos incêndios, espancamentos e assassinatos sugerem um problema muito mais profundo do que autoridades sem princípios.

A população em geral em Mianmar, que é predominantemente budista (aproximadamente 90%) e da etnia bamar (mais de 65%), gostaria de acreditar que os monges budistas que supostamente participaram desses incidentes brutais não são monges reais. Isso seria mais fácil de contemplar do que a realidade dolorosa de que a venerada ordem budista, a Sangha, foi corrompida.

Houve um tempo em que a maioria dos homens e mulheres jovens que ingressavam na ordem era movida pela busca espiritual. Mas durante o meio século de governo da junta, foram as guerras ao longo das áreas de fronteira e a pobreza esmagadora que levaram os noviços aos mosteiros. Muitos eram órfãos sem outras opções; outros eram crianças confiadas aos monges por pais carentes tentando garantir abrigo e algum ensino para elas. No perfil de seus recrutas, a Sangha não era muito diferente do Exército  –e às vezes os abades eram tão brutais quanto os oficiais.

Eu cresci nos anos 90 em uma família budista conservadora e passei todos os verões após a quinta série estudando nos mosteiros. Em vez de se concentrarem na meditação, os monges praticavam astrologia para atrair doações e se ocupavam coletando objetos domésticos como donativos. Hoje, muitos monges  possuem celulares digitais, carros de luxo e televisores de LCD. Alguns também praticam jogos de azar.

"Apenas quando você crescer você buscará o caminho da espiritualidade", me disse um abade em Yangun na semana passada. "Fora isso, a maioria dos monges leva uma vida normal, não diferente da dos leigos."

Pior, os monges que conheci naqueles verões viam a Sangha como uma seita, exibindo pouco respeito por outras religiões e muita indiferença pela natureza universal dos ensinamentos do Buda. Enquanto Mianmar for política e economicamente instável, a ordem continuará sendo um refúgio para pessoas em dificuldades, mas também, em alguns casos, um ninho de sectarismo.

Em 2001, ataques contra muçulmanos ocorreram em Taungoo, Pyinmana, Kyaukse e outras cidades na região central de Mianmar, e vários dos jovens monges envolvidos foram presos. Eu conheci alguns deles na Prisão de Myingyan, perto de Mandalay, onde eu estava cumprindo pena como estudante dissidente.

Um me disse orgulhosamente que defendeu o budismo incendiando propriedades de muçulmanos. Outro, conhecido como Wirathu, que estava preso em uma prisão diferente pelos mesmos crimes, agora realiza uma campanha chamada movimento 969, fazendo discursos de ódio contra os muçulmanos.

No ano passado, após confrontos contra os rohingyas, uma minoria muçulmana sem Estado no Estado de Rakhine, alguns amigos meus que são monges me disseram que direitos humanos e os valores ocidentais não se aplicam àquele grupo. Quando perguntei por que não, e argumentei que, como seres humanos, os rohingyas deveriam ser tratados segundo os princípios do budismo, meus amigos balançaram a cabeça e me disseram que eu não era mianmarense.

Fico feliz por não terem dito que eu não era um budista.


Texto de Swe Win, para o International Herald Tribune, reproduzido no UOL. Tradução de George El Khouri Andolfato.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Conflitos entre budistas e mulçumanos intensificam desigualdades em Mianmar


Mas quem são esses rohingyas, indivíduos da Ásia, que até mesmo a "heroína birmanesa da democracia", Aung San Suu Kyi, hesitou em defender durante sua visita à Europa? Nas últimas semanas, os tumultos que eclodiram em Arakan, no oeste de Mianmar, entre essa minoria de muçulmanos e a maioria budista, resultaram oficialmente em mais de 80 mortos e 54 feridos. O programa alimentar mundial da ONU distribuiu uma ajuda emergencial a 60 mil pessoas, afirmando que 90 mil desalojados precisavam de assistência.
As ONGs temem que esse número seja bem mais elevado. Certas fontes suspeitam que a polícia birmanesa tenha ajudado os budistas nos massacres antimuçulmanos.
A própria origem do nome rohingya é controversa, uma vez que os historiadores birmaneses alegam que ninguém ouvira falar dele antes dos anos 1950. Esse fato fortalece a argumentação do governo de Mianmar, que lhes nega qualquer direito de cidadania e os considera como estrangeiros e imigrantes ilegais.
Fisicamente parecidos com os bengaleses, eles se comunicam em uma língua próxima do bengali falado em Chittagong, no sul de Bangladesh, e teriam origens diversas, provavelmente descendendo de árabes, mongóis, turcos, mouros e outros persas que desembarcaram no Sudeste Asiático.
Segundo a ONU, os rohingyas são "a minoria mais perseguida do mundo". Seriam 800 mil deles no Estado de Arakan, concentrados, sobretudo, nas áreas perto da fronteira do Bangladesh. Nesse país, para onde eles fugiram em massa várias vezes para escapar da repressão da junta birmanesa então no poder – sobretudo em 1978 e em 1991-1992 - , centenas de milhares de rohingyas permaneceram nos campos de refugiados em Bangladesh. Muitos sobrevivem em absoluta miséria.
Ninguém quer os rohingyas. São os ciganos do Extremo Oriente, reprimidos pelo regime birmanês há tempos, na melhor das hipóteses tratados como "bengaleses", e na pior de "monstros negros". Nesse momento, eles estão sendo até reprimidos pela guarda fronteiriça bengalesa. Bangladesh, cuja solidariedade "islâmica" de outrora agora ficou para trás, não quer somar a seus próprios problemas a chegada maciça desses malditos por todos.
Em Yangun, teve início uma onda de ódio contra eles na internet, onde são comparados a "cães, ladrões, terroristas". Um internauta, comentando uma foto que mostrava o cadáver de um rohingya durante os primeiros tumultos, escreveu esta frase: "A morte ainda é pouco para eles como punição!"
Confisco de terras
Mesmo ex-dissidentes presos acreditam que eles deveriam voltar para a "casa" deles e deixar o país. Casa? Eles não têm. Instalados em território birmanês no mínimo desde o reinado do Império Britânico, eles não têm para onde ir. O governo lhes negou qualquer direito de cidadania.
Em 1982, uma lei os tornou oficialmente apátridas. Os rohingyas não são reconhecidos como minoria étnica em um país onde há listadas 130 etnias. Eles encontram dificuldades para se casar, para enviar seus filhos à escola, não podem frequentar a universidade. Eles são – ou foram – os principais alvos dos abusos do aparelho do Estado durante a antiga junta militar, sofrendo extorsões, confisco de terras e trabalhos forçados.
Certas vozes moderadas lamentam que a retirada parcial da censura e a continuidade de um processo de democratização pelo atual governo tenham permitido a emergência de uma liberdade de expressão que assume um viés incômodo quando são despertados os velhos demônios do racismo e da discriminação religiosa ou étnica.
Dessa vez, tudo começou no início de junho, após o estupro e o assassinato, no dia 28 de maio, de uma jovem birmanesa budista de 28 anos, Ma Thidar Htwe. Depois que se espalhou o rumor da culpa dos rohingyas, uma multidão de budistas atacou um ônibus ocupado por muçulmanos. Eles lincharam até a morte dez deles. Começou então o ciclo de represálias, com os rohingyas saqueando vilarejos budistas de Arakan antes de eles mesmos serem atacados e expulsos de suas terras.
O presidente birmanês Thein Sein impôs então o estado de exceção e um cessar-fogo nas regiões problemáticas. A censura, cujo fim definitivo as autoridades haviam anunciado no dia 1º de junho, foi restabelecida – ou não retirada – a respeito de qualquer informação sobre os tumultos de origem religiosa.
No dia 19 de junho, um tribunal de Arakan condenou à morte dois homens acusados do estupro e do assassinato. Eles haviam sido identificados anteriormente pela imprensa birmanesa como "muçulmanos bengaleses", termo que define os rohingyas, ainda que em Mianmar também haja muçulmanos de origem indiana ou bengalesa que não são rohingyas.
O surto de violência traz o temor de que a tensão entre muçulmanos e budistas se estenda a outras regiões do país, uma vez que muitos discípulos do profeta originários do subcontinente indiano imigraram para Mianmar durante a colonização britânica. Em um país devastado desde sua independência por diversas guerras étnicas, isso é algo com que se preocupar.
Mesmo Aung San Suu Kyi se recusou a intervir claramente a favor dos rohingyas, provavelmente por temer críticas de seus partidários caso ela ousasse defender esses homens sem existência.
Reportagem de Bruno Philip, para o Le Monde, reprduzida no UOL.
Tradutor: Lana Lim