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domingo, 6 de dezembro de 2015

Borracha neles!

Aos 15 anos eu tinha um namorado chamado Eduardo, uma mochila de rodinhas para que os livros pesados não sobrecarregassem minhas costas e muito tédio. Tirando história e literatura, eu odiava todas as outras matérias. Tirando a Michele e o Toninho, eu detestava todos os outros alunos. Tirando sextas e sábados, dias em que estava liberado assistir às aulas sem uniforme, eu abominava todos os dias da semana. Eu era a típica pessoa sem problemas, no entanto, enfastiada porque meu pai cismava de conversar comigo no trajeto para a escola e o vestido que eu queria da Pakalolo não tinha mais no tamanho "P".
O plano era matar aulas pra encontrar meu namorado e eu era muito boa nisso. Eu obrigava minha mãe a fazer "bilhetinhos de dispensa" para a educação física (dizia a
ela que não me sentia bem por conta do prolapso da válvula mitral, problema que acometia a família toda, e que usaria o tempo para ficar na biblioteca lendo), mas usava tal ingenuidade materna documentada para escapulir e ir dar uns amassos no cinema.
A vida parecia terrível, longa, infernal, claustrofóbica, começando sempre às seis da manhã e terminando com a minha cara enterrada em um livro de física, sem entender exatamente aonde aquilo me levaria. Se existia Deus, e eu aprendia em sexologia que sim (o professor da instigante disciplina era um padre, vai entender), ele devia estar penalizado pelos meus dias de tamanha provação.
Só adulta fui entender como tive privilégios e fui ininterruptamente instruída, auxiliada, ouvida, amada, salva, levada, trazida, no ar-condicionado, no uniforme com amaciante, na psicóloga para que eu falasse dessa tamanha angústia por sabe lá o motivo, nos shoppings para encontrar amigos e torrar mesadas, nas festas implorando à minha mãe que mudasse o limite da uma da manhã para uma e meia da manhã. Eu era insuportavelmente feliz, sobretudo porque podia me dar ao luxo de buscar motivos misteriosos para não ser.
Ao ver essa absurda repressão policial, com homens apontando armas para garotas de 15 anos, batendo e jogando cadeiras em jovens que só querem entender, afinal, o que significa "reorganização", uma vez que está um pouco confuso quando, como e onde eles vão estudar, fiquei pensando como seria se, naquela época, simplesmente fechassem meu colégio e a polícia me apontasse um cassetete. Meu enfado, minha revolta contra nada, minha vontade de somente ver filmes e beijar na boca e escrever poesias e dormir até mais tarde e ouvir músicas virariam o quê? Assista qualquer uma das muitas entrevistas feitas com esses secundaristas que "invadiram" suas próprias escolas (como se essa afirmação já não fosse um absurdo) e fique pasmo: eles são muito mais espertos, organizados, articulados, informados e maduros do que você imagina. Deveria ser proibido por lei envelhecer antes da hora.
Em um país decente, um governador jamais fecharia 92 escolas. A porrada nunca substituiria o diálogo. Um chefe de gabinete em tempo algum afirmaria que é preciso adotar "táticas de guerra" para desmoralizar garotos que estão lutando para aprender. Alunos que se esforçaram tanto para passar no Enem e cursar uma boa faculdade em hipótese alguma perderiam a vaga porque estão proibidos de terminar o ano letivo. Em um país decente, adolescentes matam aulas em vez de apanhar para que possam frequentar uma escola. A borracha serve para dar mais uma chance de acertar a questão da prova, e não para quebrar ossos.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Guerra contra a educação

O governador Geraldo Alckmin governa São Paulo como se aqui fosse um imenso cafezal adquirido por herança. Sua lógica não é muito diferente daquela própria aos antigos barões do café que tomavam decisões sobre a província de São Paulo em salões fechados, viam manifestações e greves como crime produzido por "arruaceiros" a quem a única resposta era o porrete da polícia e estavam mais preocupados sobre o que saia nos jornais do que como a população, de fato, recebia suas "medidas administrativas".
O governador pode vestir trajes de barão do café porque é beneficiário da "manemolência midiática" vinda de certos setores da imprensa. Isso significa que seu governo poderá ser julgado em processos no exterior por casos de corrupção no metrô, sua incompetência poderá produzir crises hídricas e racionamentos de água, seu governo poderá criar uma situação educacional classificada por seu próprio secretário da Educação como vergonhosa, mas nada disso se transformará em investigação implacável, como vimos várias vezes quando se trata dos desmandos do governo federal. Como um grande barão, ele irá pairar acima de suas próprias catástrofes.
Neste exato momento, seu governo aprova decretos que lhe permitirão fechar escolas, deslocando alunos para salas superlotadas e eliminando "salas ociosas", resultantes da fuga de professores e alunos do sistema estadual com sua qualidade falimentar. Há anos os profissionais de ensino público procuram denunciar os resultados de uma política que afugenta bons professores devido aos baixos salários, que não garante condições mínimas de ensino em escolas sucateadas, sem bibliotecas e infraestrutura. Ao invés de melhorar o sistema, ouvindo seus professores e alunos, ele resolveu diminui-lo para que ele caiba em um orçamento em queda. Em outros lugares do mundo, os governos lutam para abrir escolas. Aqui, o governo briga para fechá-las.
Como nosso barão do café assustou-se com o fato de os alunos não agirem passivamente como gado, sua Secretaria da Educação declarou preparar-se, vejam só vocês, para uma "guerra". Esta guerra envolveria, entre outras coisas, o esforço estatal em reverter o quadro negativo de notícias. Assim, enquanto decide o futuro de centenas de milhares de alunos soberanamente por decreto saído da cabeça de seus tecnocratas, sem sequer enviar seu projeto à Assembleia Estadual, o governo diz que são os alunos que "não querem dialogar". Enquanto manda sua polícia prender alunos, espancar professores e receber adolescentes com spray de pimenta, ele afirma que os manifestantes são violentos. Neste exato momento em que você lê este jornal, há alunos sendo tratados pela polícia como criminosos por se recusarem a aceitar a "reformulação" de suas escolas. Mas temo que nada disso irá realmente sensibilizar muita gente. Para um certo setor da população paulistana, como bem disse Jean Wyllys, fechar a Paulista é mais preocupante do que fechar escolas.
Como não poderia deixar de faltar, sobrou também para as universidades paulistas: "Não há nada mais corporativo do que a USP, Unicamp e Unesp", disse nosso governador nesta semana, talvez com medo dos professores universitários começarem campanhas para se solidarizar com os estudantes. Ou seja, se a situação das universidades de São Paulo é deplorável, não é porque elas triplicaram de tamanho com a mesma dotação orçamentária, nem porque seu partido impôs um reitor à USP que foi capaz de produzir déficits bilionários. A culpa, é claro, só poderia ser do "corporativismo" que não enxerga o maravilhoso trabalho de melhoria da educação pública feito por seus tecnocratas no Tucanistão. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard costumava dizer que o pior defeito do ser humano é a transferência de responsabilidade. Meditemos.
Se me permitirem, gostaria apenas de lembrar ao governador que há sim algo mais corporativo do que nossas universidades. Basta que ele olhe para dentro de seu palácio de governo. Afinal, não seria seu partido algo mais parecido a uma corporação que acredita ter o direito censitário e eterno de nos governar sem nunca ter que ouvir, abrir a circulação efetiva de informações, responder por suas decisões equivocadas e rever processos a partir da pressão da população? Bem, mas para quem vê o Estado de São Paulo como um cafezal, as práticas de governo são outras.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

sábado, 14 de novembro de 2015

“Eu tentei proteger as crianças e a PM desceu a borrachada”. Nosso repórter na ocupação de uma escola estadual

Uma escola cercada por policiais é uma cena inquietante.
Cerca de 50 estudantes estão ali desde o dia anterior. Do lado de fora, aproximadamente 300 pessoas entre pais, alunos e professores. No meio, um cordão policial compacto.
Tão logo a reportagem do DCM chegou à Escola Estadual Fernão Dias Paes, uma enorme confusão teve início. Um pequeno grupo de estudantes começou a sair da escola, porém a polícia abordou-os e começou o “fichamento” dos adolescentes (só estão podendo deixar as dependências da escola após fornecer os dados pessoais).
O professor José Roberto Guido revoltou-se com a forma truculenta e questionou o comando da polícia. Logo foi imobilizado pelos PMs. Os manifestantes tentaram intervir mas um agrupamento de policiais anvançou. Sobrou cacetada e agressões em todos que tentaram impedir sua detenção.
A visão de professores sendo agredidos é duplamente inquietante, triplamente revoltante.
“A polícia do governador é autoritária, agride e reprime a população. Aqui estamos lidando com jovens, crianças e adolescentes. É um absurdo essa atitude da polícia militar. E se você se manifesta, eles alegam desacato à autoridade. Nós estávamos negociando a saída de alguns alunos e fui agredido”, afirmou o professor Leandro Oliveira. Ele também foi agredido e jogado ao chão.
Rose é mãe de aluno e tomou um golpe de cacetete no braço direito. “Eu fui afastar as crianças pois vi que polícia ia passar por cima, como fazem sempre. Daí começaram a distribuir borrachada. Só quem não sabe negociar nem dialogar faz isso. Querem impor uma reorganização, sem diálogo”, afirmou. Ela não tem filhos naquela unidade porém é contrária à reformulação pois teme a superlotação.
A Fernão Dias Paes terá só o nível médio a partir de 2016, o que significa que 213 alunos do fundamental serão transferidos. Isso faz parte do plano de ‘reorganização’ do governo do Estado de São Paulo que pretende segmentar escolas por ciclos de ensino. Fundamental 1 (do 1º ao 5º ano), Fundamental 2 (do 6º ao 9º ano), e Ensino Médio serão ministrados em locais distintos. Sem aviso prévio nem consulta popular, a decisão da Secretaria de Educação do governo Alckmin desagradou a todos.
Desde a tarde de ontem, a Fernão Dias Paes está ocupada por alunos contrários ao plano de alteração no ensino estadual. Após uma noite em que a água chegou a ser cortada com o objetivo de desestimular os estudantes, muitos permaneciam nas dependências da escola durante todo o dia de hoje. Não se sabe por quanto tempo. A Procuradoria Geral do Estado informou já ter entrado com um pedido de reintegração de posse da escola. Enquanto isso, o acesso é proibido a todo mundo. Nem pais, nem professores, ninguém entra. A não ser, claro, a polícia.
Mas estudantes estarem na própria escola é uma ocupação?
“Para a polícia sim, pois ela entende que os jovens estão lá sem autorização. Mas é um direito dos alunos. É uma manifestação espontânea e acreditamos que acontecerá em outros lugares porque a Secretaria de Educação não quer dialogar. Ninguém sabe quem vai para onde. Professores, funcionários, pais e alunos estão apreensivos”, disse Audimar de Assis, advogado da Apeoesp. De fato, a Escola Estadual Diadema também está ocupada por estudantes desde às 19h de segunda-feira (dia 9).
Com o passar das horas a tensão vai aumentando pelo aguardo da ordem de reintegração. “O governo alega que tem uma liminar mas até agora não conseguimos localizar esse processo. De qualquer maneira estamos aqui acompanhando”, completou  Audimar.
A aluna Mariana Martins, 16 anos, é do 2º ano médio da Fernão Dias Paes e havia passado a noite na escola. Saiu para atender ao pedido da mãe que estava muito temerosa com a iminente violência policial. “A gente sabe que eles não vão entrar de forma pacífica.”
Há poucos dias, um policial dos Estados Unidos entrou em uma escola e arrancou uma aluna à força da sala de aula. Parece que estamos nos aproximando desse estágio. Para o governador Geraldo Alckmin, educação é um problema de polícia. Para o diálogo ele envia a Tropa de Choque. Aliás, já se tornou um clássico. Para todo e qualquer problema o governador envia sua PM. Até adolescentes como Mariana sabem. Não precisa cair no Enem, é muito fácil.

Texto de Mauro Donato para o Diário do Centro do Mundo.