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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Biólogos rivais disputam explicação da monogamia

Biólogos rivais disputam explicação da monogamia
Análise com macacos atribui fidelidade sexual à prevenção do infanticídio
Para estudo evolutivo com mais mamíferos, porém, comportamento surge quando acesso a várias fêmeas é difícil
RAFAEL GARCIADE SÃO PAULO

A última tentativa da biologia moderna de elucidar o paradoxo da monogamia --por que ser fiel a uma única parceira se a evolução favorece a promiscuidade?-- jogou mais dúvidas do que respostas sobre a questão. Os dois últimos estudos sobre o tema são contraditórios.
O primeiro deles é uma análise com 2.500 mamíferos. O trabalho indica que a monogamia surgiu em espécies nas quais as fêmeas vivem muito distantes umas das outras, e o comportamento promíscuo fica custoso para o macho. Já o segundo trabalho, que analisou 230 macacos, mostra que a fidelidade a uma única parceira surgiu para prevenir o infanticídio.
Ambos os estudos usaram métodos semelhantes para chegar às suas conclusões. Primeiro, fizeram uma reconstrução da árvore da vida dos mamíferos de todas as espécies analisadas, para saber quais eram mais próximas evolutivamente. Depois, usaram literatura científica existente para atribuir a cada uma delas diferentes comportamentos sociais --monogamia ou poligamia, solidão ou gregarismo etc.
Os cientistas estavam tentando descobrir por que apenas 9% das espécies de mamíferos são monogâmicas, enquanto mais de 90% dos pássaros exibem esse comportamento. Uma análise estatística deveria levar os dois estudos a uma conclusão similar, mas ocorreu o inverso.
"Quando fêmeas solitárias se distribuem num espaço amplo, machos em busca de oportunidades de acasalamento sofrem risco de ferimentos ou predação", afirmou Dieter Lukas, da Universidade de Cambridge, coautor do estudo mais abrangente com mamíferos, publicado na revista "Science". "Não vimos evidência de associação próxima entre monogamia e risco de infanticídio."
Christopher Opie, porém, do University College de Londres, enxerga o inverso ocorrendo entre macacos. "A origem da monogamia em primatas é mais bem explicada pelo longo período de lactação causado pela dependência para alimentação, tornando filhotes particularmente vulneráveis a machos infanticidas", escreveu o cientista em estudo na revista "PNAS".
Ao conversar com jornalistas ontem, cientistas pareciam surpresos ao saber da disparidade entre as conclusões dos estudos.
"Na nossa análise, obtivemos um sinal muito claro de que foi o infanticídio que levou à monogamia e não aquilo que Lukas está sugerindo", disse Opie à Folha. "Ao analisar tantas espécies de mamíferos, ele pode ter perdido esse efeito entre os primatas."
Os cientistas de Cambridge, porém, afirmam ter sido mais rigorosos do que Opie em suas análises estatísticas. "Uma razão para a disparidade pode ser o uso de maneiras diferentes para classificar as espécies", diz Tim Clutton-Brock, coautor de Lukas.
No estudo, classificar humanos como monógamos gerou discussão. "O que temos em humanos são casais que se associam, mas se encaixam dentro de grupos maiores. Não observamos isso em nenhum outro mamífero."
Outra explicação para a contradição entre os estudos é o tamanho da amostra, diz o cientista. "Em pequenos conjuntos de dados, é possível achar associações aleatórias que não aparecem nos grandes conjuntos."
Nenhum dos grupos de cientistas disse ter enxergado erros evidentes no estudo dos rivais, porém. A disputa acadêmica tende a continuar.


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Corpo humano abriga quase 10 mil espécies de micróbios


Corpo humano abriga quase 10 mil espécies de micróbios

Projeto fez primeiro mapa de micro-organismos que 'colonizam' o homem
Conhecer as diferenças entre o microbioma de pessoas saudáveis e doentes pode levar a novos medicamentos

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

Pela primeira vez, pesquisadores mapearam as comunidades de micro-organismos do corpo humano, como bactérias e fungos.
O Projeto Microbioma Humano, financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, publicou ontem um conjunto de 14 estudos nas revistas "Nature" e "PLoS".
As pesquisas usaram técnicas de sequenciamento de DNA para identificar esses organismos e mostrar sua diversidade e abundância nos seres humanos, além de suas funções no corpo.
Os micro-organismos analisados foram retirados de 242 homens e mulheres. A coleta foi feita em diferentes partes do corpo, como pele, boca, intestino e vagina.
Até então, só as bactérias do trato gastrointestinal haviam sido catalogadas pelo projeto MetaHIT, que envolve oito países.
Os pesquisadores concluíram que quase 10 mil espécies de micro-organismos perfazem as comunidades ecológicas no nosso corpo.
Eles também mostraram que cada parte do corpo tem uma população diferente de micróbios, cada uma com sua função -no caso do intestino, os micro-organismos ajudam a digerir os alimentos.
O projeto mostrou ainda que cada pessoa tem um microbioma único, com tipos e quantidades diferentes de bactérias para realizar o mesmo trabalho. Uma quantidade alta ou baixa da mesma bactéria não quer dizer que uma pessoa seja mais ou menos saudável.
James Versalovic, pesquisador do projeto e chefe do departamento de patologia do Texas Children's Hospital, nos EUA, afirma que a maioria dos micróbios no corpo não causa doenças.
"Esperamos que com esses dados as pessoas fiquem menos paranoicas e não usem antibióticos ou sabonetes bactericidas para tudo. Interferir no equilíbrio do microbioma pode causar mais danos que benefícios."
Versalovic diz que definir o microbioma de um adulto saudável e saber quais são e o que fazem os micróbios que habitam o ser humano era o primeiro objetivo do Projeto Microbioma Humano.
Agora, com o material genético proveniente de comunidades completas de micróbios, os próximos passos serão comparar os micróbios de pessoas saudáveis com os de doentes para entender como os problemas se desenvolvem e criar novas drogas.
Um dos estudos do MetaHIT já mostrou que quem tem menor diversidade de bactérias na flora intestinal tende a ser obeso, a ter mais gordura no fígado e responder pior a dietas.
"Essa é só a ponta do iceberg. O interessante será observar como os dois genomas -o humano e o dos microrganismos- interagem", diz Vasco Azevedo, professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.