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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Por que o Chavismo Perdeu?

As urnas foram implacáveis com o Grande Polo Patriótico, frente eleitoral comandada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela.
A oposição conservadora, organizada ao redor da Mesa de Unidade Democrática, segundo estimativas parciais, alcançou 99 entre 167 cadeiras da Assembleia Nacional, enquanto o governismo ficou reduzido a 46. Ainda restam para escrutinar 22 vagas.
O resultado é incontestável, com a participação eleitoral batendo nos 75%.
A revolução bolivariana, pela primeira vez em 17 anos, perdeu maioria. Ainda que já tivesse sido derrotada no referendo de 2007 e no número de votos totais das eleições parlamentares de 2010, o inédito é a conformação de uma onda eleitoral negativa que altera estruturalmente um dos poderes da república.
Ao contrário do que propalavam aos quatros ventos os inimigos do chavismo, dentro e fora do país, as eleições ocorreram dentro da normalidade e o presidente Nicolás Maduro reconheceu prontamente a voz das urnas, sem qualquer esboço de desrespeito à Constituição ou virada de mesa.
As forças de esquerda, no entanto, estão obrigadas a compreender, dentro e fora da Venezuela, o que se passou. Os chavistas terão igualmente que decidir o rumo a tomar.
Talvez o principal erro tenha sido o esquecimento de uma velha lição sobre o colapso do socialismo na União Soviética: nenhum processo revolucionário sobrevive, a longo prazo, com esgotamento do sistema produtivo.
A China extraiu todas as conclusões do aprendizado. A esquerda latino-americana ainda patina neste capítulo do manual.
O problema não é somente venezuelano, tem dimensões mais universais.
Governos progressistas, em regimes capitalistas, podem impulsionar fortemente a geração de emprego e renda, reduzir a desigualdade social, universalizar direitos, ampliar serviços públicos e aumentar a participação dos trabalhadores na renda nacional.
O fortalecimento da demanda, em um primeiro momento, se transforma em contagiante força propulsora da economia, pois a ampliação do mercado interno estimula a produção e atrai novos investimentos.
Mas se reformas estruturais não são feitas a tempo, expandindo a oferta de bens e serviços em ritmo sincrônico ao aumento da renda, abre-se uma contradição de fundo que potencialmente conduz à crise inflacionária, ao desajuste cambial e ao esgotamento fiscal.
As alavancas de estimulo ao consumo são predominantemente públicas, vale lembrar, mas o capital de investimento continua concentrado nas corporações privadas, nacionais e estrangeiras. Esses setores tomam decisões a partir da taxa de lucro, da segurança jurídica e de interesses político-ideológicos claramente definidos.
Pouco alvissareiro é o cenário se o Estado mostra-se incapaz de reordenar a economia, colocando sobre seu controle ou regulação ferramentas fundamentais para o desenvolvimento, particularmente as riquezas naturais e o sistema de crédito, ao mesmo tempo que estimula pacto produtivo com o empreendedorismo, os setores não monopolistas do capital e até mesmo grupos empresariais de grande porte.
A Venezuela é o maior exemplo continental de sucesso em distribuição de renda, avanço dos direitos populares, melhoria do padrão de vida e turbinagem dos principais indicadores de bem-estar.
Isso somente foi possível porque o governo passou a dirigir efetivamente a PDVSA e reorientou a renda petroleira, em período altista nos preços do ouro negro, para custear amplos programas sociais.
A estrutura econômica, porém, manteve-se praticamente intacta, com altíssimo grau de dependência do petróleo e baixo grau de diversificação. Era esse o atalho mais rápido, ironicamente, para oferecer prosperidade imediata à maioria dos venezuelanos, antes estrangulada pela apropriação da principal riqueza do país pelas famílias oligárquicas.
A revolução produtiva, conceito do próprio chavismo, significava caminho mais lento e difícil, além de pressionar por boa fatia dos recursos aplicados na construção acelerada de sistema de bem-estar.
O símbolo maior desta política provavelmente seja o preço da gasolina: mantido inalterado há muitos anos, equivale a 2% da média mundial, gerando um prejuízo anual de 8 a 12 bilhões de dólares, ao redor de 2,5% do PIB nacional.
Sem mudanças de largo alcance, o país continuou importando grande parte do que consome, mas em escala várias vezes superior que no passado, por conta da expansão de demanda.
Enquanto o movimento ascensional do petróleo custeou esse modelo, o voo era de cruzeiro. A terrível baixa dos últimos anos, no entanto, levou a uma situação de bancarrota, expondo fragilidades que acabaram aproveitadas pelo terrorismo econômico, instrumento oposicionista para sabotar o governo e leva-lo às cordas.
O governo nacionalizou empresas, criou redes de distribuição, buscou incentivar a agricultura e tentou enfrentar a chantagem burguesa com medidas administrativas. Quando o preço dos barris despencou, nada disso se mostrou suficiente ou eficaz.
O resultado, na soma entre esgotamento e sabotagem, foi uma gravíssima crise inflacionária e de escassez mercantil, além de cambial, duradoura a ponto de minar até as bases históricas do eleitorado chavista.
O problema não é novo. Durante vários anos, as formidáveis conquistas sociais, a disposição do chavismo para a disputa político-ideológica e a construção de forte identidade popular com o projeto permitiram substituir a economia pela política.
Ontem esta estratégia se revelou terminal.
O presidente Nicolás Maduro, em mensagem de reconhecimento democrático das urnas, claramente identificou o cenário e assumiu compromisso de enfrentá-lo.
Mas terá que fazê-lo em uma correlação de forças bastante diferente.
As eleições empurram o chavismo, se quiser ter alguma chance de sobrevivência, para a necessidade de estabelecer novas alianças e tentar dividir a oposição, agora majoritária no parlamento.
Não apenas por razões produtivas, mas também políticas, terá de reconstruir canais de diálogo e concessão com frações do empresariado.
A empreitada será dificílima: enfrentará uma direita que se sente muito perto de recuperar o poder e a galope de uma ofensiva aparentemente imparável.
O fato, porém, é que inexiste espaço real, interno ou internacional, para qualquer outra alternativa. As circunstâncias são parecidas com a derrota sandinista na Nicarágua, em 1990.
A revolução, para continuar respirando, mesmo por aparelhos, está diante da obrigação de dar vários passos atrás.
Daqui a alguns meses, haverá a batalha final, com convocação de referendo revogatório do mandato presidencial, previsto na Constituição.
A areia na ampulheta é rala, mas o chavismo sempre se destacou pelo fôlego de gato, como se sete vidas tivesse.
A saber se ontem perdeu a sexta ou a sétima de suas existências.

Texto de Breno Altman, no Opera Mundi. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Venezuela e a irresponsabilidade de Aécio Neves

Na semana passada, o senador Aécio Neves deu mais uma prova de que não está preparado para ser presidente da República. A sua investida na Venezuela foi típica a de um aventureiro, que não mede as consequências de seus atos, desde que estes lhes aufiram dividendos políticos pessoais. Um político sério deve guiar-se sempre pelo princípio da responsabilidade, pressupondo e perscrutando sempre as previsíveis consequências de suas ações. Não foi isto que Aécio e os senadores que o acompanharam à Venezuela fizeram.
Acossado pelo lançamento da candidatura presidencial do governador Geraldo Alckmin, incapaz de unificar e de dirigir politicamente o PSDB, Aécio vislumbrou na Venezuela a possibilidade de teatralização de uma ação inconsequente para aparecer como um arauto da liberdade. Na prática, esteve na iminência de provocar um incidente diplomático grave. De forma oportunista, serviu-se do episódio da Venezuela para gerar intrigas com o Itamaraty e para atingir o governo Dilma.
A Venezuela, de fato, está imersa num conflito político grave, de desdobramentos imprevisíveis. A crise econômica e social, com descontrole inflacionário e desabastecimento, não é menos preocupante. O esforço dos países Sul-americanos, agregados na UNASUL, consiste em articular mediações e negociações visando apaziguar os ânimos e impedir que o conflito desague em derramamento de sangue. Dado esse risco, toda a ação política que se baseia na sensatez, no bom senso e na responsabilidade deveria consistir na busca de uma saída negociada. Ou seja: é preciso estimular o funcionamento dos mecanismos democráticos para que o povo venezuelano encontre, de forma pacífica, uma saída para a sua crise sem interferências externas.
Aécio Neves e os senadores que o acompanharam estavam desprovidos de qualquer propósito de mediação e de neutralidade no conflito venezuelano. Pelo contrário, adotaram uma postura provocadora, acirraram os ânimos e optaram por um dos lados do conflito. O grupo de senadores brasileiros não teve nenhum compromisso com a responsabilidade política, pois o que se trata, neste momento, é evitar que a Venezuela ingresse num momento de conflito político armado, justamente quando o governo da Colômbia e a guerrilha das FARC estão num processo de finalização de um acordo de paz depois de mais de cinco décadas de guerra. Garantir que a América do Sul seja uma zona de paz política é uma condição necessária para que a região encontre soluções para os seus outros desafios como a desigualdade, a pobreza, a violência social, o narcotráfico e o baixo desenvolvimento.
As Mentiras e a Falta de Decência Política de Aécio e seu Grupo
Aécio e o seu grupo destoam e contrariam dos objetivos dos demais governos sul-americanos em relação à Venezuela, que consiste em buscar uma saída mediada e negociada para a crise política daquele país. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o líder oposicionista e governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, duas vezes candidato à presidência da República, testemunha o esforço do governo Dilma e do Brasil para mediar o conflito. Afirma que foi procurado pelo então chanceler brasileiro Luiz Alberto Figueiredo para ter um canal direto de comunicação com o governo brasileiro e que conseguiu participar da reunião dos chanceleres da UNASUL porque o Brasil garantiu sua presença. Com estas afirmações, Capriles evidencia que Aécio e seu grupo de senadores estão mentindo em relação ao que se passa na Venezuela e à postura do governo brasileiro.
Outra mentira de Aécio e seu grupo se relaciona à conduta da embaixada brasileira em Caracas. Os senadores foram informados de que o embaixador brasileiro os receberia no Aeroporto e se despediria do grupo na hora da partida, já que não poderia acompanha-los até o presídio por conta das implicações diplomáticas óbvias. Ao chegarem a Caracas, os senadores afirmaram que eram compreensíveis as razões do embaixador para, depois do incidente com os manifestantes, acusa-lo, sem pudor, de tê-los abandonado.
As bravatas midiáticas de Aécio e se exército não pararam por aí. Em solo brasileiro afirmaram que irão pedir a exclusão da Venezuela do Mercosul, que apresentarão a convocação do embaixador brasileiro na Venezuela e que acionarão a presidente Dilma no Supremo Tribunal Federal por suposta violação da cláusula democrática. Dê-se novamente a palavra ao oposicionista Capriles sobre esse aspecto da exclusão da Venezuela do Mercosul: ele afirma que quem sofreria com isto seria o povo venezuelano. Meça-se a partir desse metro a pequenez política e moral de Aécio Neves e seu grupo. O oportunismo midiático do senador tucano e de seus companheiros não leva em consideração os interesses de Estado, tanto do Brasil, quanto da Venezuela, os interesses dos dois povos, as empresas e os empregos que estão envolvidos nas relações comerciais entre os dois países. Afinal de contas, a Venezuela é o segundo maior parceiro comercial do Brasil na América do Sul.
Tudo somado, o fato é que se a existência de prisioneiros políticos na Venezuela é algo a ser condenado, não é jogando gasolina no fogo ou acendendo fósforo num paiol de pólvora, como disse Marco Aurélio Garcia, que se resolverá o problema. É preciso usar o bom senso, o equilíbrio e a mediação. Se existem prisioneiros políticos como Leopoldo López e Daniel Cabellos, existem também oposicionistas governando estados, como é o caso de Henrique Capriles. Tanto no governo, quanto na oposição existem aqueles que querem saídas não democráticas.
O golpismo de setores oposicionistas é histórico na Venezuela. Assim, o senso de responsabilidade consiste em promover o entendimento entre os setores do governo e da oposição que acreditam que a saída da crise é pela via da democracia, pela via do voto. Aécio e seus acompanhantes em nada contribuíram para isto. Parecem mais dispostos a estimular o golpismo e a radicalização do que a democracia e a paz. Depois de semear o ódio político no Brasil, Aécio parece propor-se, em seu despreparo e em seu aventureirismo, a exportá-lo para os nossos vizinhos. A conduta de Aécio Neves confere cada vez mais credibilidade a militantes tucanos de São Paulo que nunca confiaram no senador mineiro por considera-lo superficial e irresponsável.

Texto de Aldo Fornazieri, no Jornal GGN. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A beatificação do fracasso

Ato público do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), sob o comando do presidente Nicolás Maduro: a horas tantas, o público entoa "Chávez nuestro que estás en el cielo/ en la tierra, en el mar y en nosotros/los delegados y las delegadas/ santificado sea tu nombre...".
Pois é, a parte da esquerda brasileira que se horroriza com a religiosidade de Marina Silva silencia ante o endeusamento de Hugo Chávez. Trata-se de culto à personalidade, desgraçadamente um clássico na história latino-americana.
Na Venezuela é pior. O próprio presidente Maduro já disse que Chávez lhe apareceu em um sonho, travestido de "pajarito", e lhe deu conselhos. Ou se trata de um caso clínico grave ou é pura demagogia, uma forma de apropriar-se do cadáver de um líder realmente querido por pelo menos metade da Venezuela.
Se é a segunda hipótese, não funcionou. Acaba de sair pesquisa do IVAD (Instituto Venezuelano de Análise de Dados), sempre considerado próximo do chavismo, com resultados que só orações mais fervorosas poderão eventualmente desmanchar. Ei-los:
– 77% acham que o governo vai na direção errada;
– 82,5% dizem que o país está atolado em uma crise econômica;
– 78,9% veem também uma crise política;
– 63,4% têm visão negativa da performance de Maduro;
– 68,6% têm pouca ou nenhuma confiança em que o presidente possa resolver problemas econômicos;
– 58,4% acham que Maduro deveria renunciar;
– 59,1% pensam que o governo não é democrático e está se transformando em uma ditadura;
– 57% culpam as forças governamentais pelas mortes no período de protestos de fevereiro a maio;
– 79,5% acham que há prisioneiros políticos na Venezuela;
– 50,9% votariam em candidatos de oposição para uma eventual Assembleia Constituinte; só 27,6% o fariam pelo PSUV;
– 49,8% dos pesquisados se inclinam pela oposição, ao passo que a fatia governista é de apenas 32,5%.
Repito: o IVAD não é um instituto oposicionista. Em todas as eleições, seus números são geralmente mais favoráveis ao governo.
Outro instituto, o Datanálisis, tido como o mais sério de todos, fez um levantamento sobre o desejo de emigração dos venezuelanos e descobriu que 10% da população está preparando papéis para fugir do país. No Brasil, seriam 20 milhões dispostos a partir, êxodo de tempos de guerra.
Parece claro que o socialismo do século 21 esgotou-se. Produziu, numa ponta, formidável redução da pobreza (caiu de 51,7% em 2000 para 29% em 2012, segundo dados da ONU). Na outra ponta, inflação recorde, desabastecimento idem e crescimento perto de zero.
É natural que Maduro venha falando há algum tempo num "sacudón", uma forte mexida nas políticas. Até agora, não passou de uma dança de cadeiras entre ministros. O presidente precisa escolher entre aprofundar o socialismo (modelo que não funcionou em nenhum lugar do mundo) ou adotar alguma liberalização, que os fiéis de "Chávez nuestro" repudiarão. Haja orações, pois.


Texto de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

As duas Caracas e a "guarimba"


À enorme divisão política na Venezuela, já tratada aqui (folha.com/no141491), soma-se um abismo geográfico entre a Caracas do Leste, que protesta quase diariamente, e a do Oeste, normalmente violenta ao extremo, mas que, em comparação ao Oriente, está calma nestes dias de "guarimba", como seus habitantes chamam a confusão que se estabeleceu do outro lado.
A diferença é retratada por Airam Fernández no "Últimas Notícias":
"O Oeste parece outra cidade. Em zonas populares como 23 de Janeiro, Catia e Propatria, a realidade não é a mesma de Chacao, Altamira ou Los Ruices [os bairros de classe média e alta do lado oriental]. Nesta metade da capital, os vizinhos não adotam a 'guarimba' nem fecham as ruas em sinal de protesto".
Mas, atenção, o silêncio dos bairros populares não quer dizer satisfação com os rumos da chamada revolução bolivariana. Airam Fernández informa, também, que os moradores de 23 de Janeiro, Catia e Propatria "confessam que se unem à atividade que, durante as noites, ensurdece os habitantes: 'cacerolear'" (bater panelas em sinal de protesto).
Se é assim, por que não se unem à "guarimba"? Simples: porque, "para as pessoas que conheço neste lado da cidade, os protestos têm pouco a ver com resolver seus problemas, e muitos acreditam que só tornarão as coisas piores", depõe Rebecca Hanson, blogueira norte-americana que mora e faz pesquisas em Catia, bastião chavista.
Mais: "Há uma percepção amplamente aceita pelos chavistas de que a oposição deseja ir a qualquer extremo –açambarcar comida, destruir infraestrutura etc.– para recuperar o poder que perdeu sob Chávez".
Essa percepção é a que o governo vende e não está completamente longe da verdade.
A ala da oposição liderada por Leopoldo López, hoje preso, acha de fato que as manifestações de rua são o caminho para defenestrar Nicolás Maduro. Outro grupo, liderado por Henrique Capriles, prefere acumular forças para bater o governo nas urnas, a única maneira democrática de fazê-lo.
A desconfiança em relação aos "guarimberos" no lado ocidental de Caracas "não quer dizer que as tensões não sejam altas nem que os chavistas não estejam desiludidos", completa Rebecca.
Reforça Rory Carroll no "Guardian", um raro jornal do Ocidente que não é hostil ao chavismo:
"Esta pretensa alternativa ao capitalismo é uma casca. Enfrenta uma ameaça existencial não dos jovens cantando nas praças, mas do fato de que a Venezuela é uma ruína disfuncional, caótica e em desintegração", escreve Carroll, correspondente em Caracas por seis anos.
De fato, uma inflação de 56%, desabastecimento agudo e uma criminalidade fora de controle tornariam a situação caótica mesmo que não houvesse a "guarimba".
De todo modo, na agenda de prioridades do governo, tem que estar mesmo o controle das manifestações, antes que os outros problemas, preexistentes, se agravem ainda mais e levem o lado Oeste a trocar os "cacerolazos" pela "guarimba".

Reprodução de texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Hora de dizer a verdade a Maduro


No finalzinho de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente eleito, mas ainda não empossado, enviou a Caracas o seu futuro assessor diplomático, Marco Aurélio Garcia, para um esforço de conciliação em um momento em que o país parecia caminhar para uma guerra civil.
É bom lembrar que, meses antes, Hugo Chávez havia sido deposto por um golpe de efêmera duração, claro indicativo do grau de exacerbação a que chegara o país.
Graças à gestão de Marco Aurélio, criou-se um grupo chamado de Amigos da Venezuela, que foi essencial para amortecer a crise.
Onze anos depois, a situação na Venezuela voltou ao ponto de ebulição, o que sugere que Marco Aurélio poderia ser de novo convocado para uma discreta missão moderadora. Afinal, tudo o que não interessa ao Brasil é mais turbulência em sua fronteira norte ou dar cego apoio ao regime chavista.
Antes de mais nada, é preciso aceitar que a Venezuela rachou ao meio. O resultado eleitoral do ano passado (50,6% para Nicolás Maduro contra 49,12% para o oposicionista Henrique Capriles) é definitivo a esse respeito.
Trabalhar só com o chavismo seria, assim, dar as costas a metade da população venezuelana, erro que nenhum país sério pode cometer.
Convém, portanto, ser cauteloso em relação à prisão do líder opositor Leopoldo López. Como diz José Miguel Vivanco, da respeitada ONG Human Rights Watch, "até o momento, as autoridades não apresentaram nenhuma prova séria para sustentar as acusações contra Leopoldo López, apenas insultos e teorias de complô".
Não que a oposição faça muito diferente. O quadro no país é bem descrito por Rogélio Núñez, do site Infolatam, para quem "chavistas e antichavistas foram escalando seu ódio mútuo, a ponto de o rival se converter em inimigo irreconciliável, não em alternativa de governo".
O problema é que quem tem a força é o governo, que pode transformar seu ódio em perseguição.
Acusar López pelas mortes nas manifestações da semana passada é ignorar as evidências de que pelo menos duas delas podem ter sido obra de agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência, conforme vídeos divulgados pelo jornal "Últimas Notícias".
Não por acaso, o chefe do Sebin, general Manuel Bernal, acaba de ser destituído.
Uma discreta gestão brasileira deveria incluir um palpite forte: a dramática situação econômica na Venezuela só começará a ser corrigida se o governo dialogar com o setor privado. Afinal, este ainda é majoritário (responde por 58,2% do Produto Interno Bruto, segundo dados de 2012), apesar do avanço do Estado nos anos Chávez.
Suspeito que nem o governo cubano, que pôs em marcha reformas capitalistas, recomendaria a seu amigo Maduro que adote o caminho oposto e estatize o que resta do setor privado. Só desvairados poderiam supor que o socialismo do século 21, se imitasse o do século 20, chegaria a resultados diferentes.
Fracassaria do mesmo modo.
Se o governo brasileiro quer ajudar Maduro, melhor dizer-lhe verdades óbvias.


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Conselho Eleitoral confirma vitória de Maduro em eleições


O Conselho Eleitoral da Venezuela completou ontem a auditoria sobre os resultado das eleições presidenciais de abril e confirmou a vitória de Nicolás Maduro sobre Henrique Capriles por 1,5 ponto percentual dos votos, divulgou a Associated Press.
Não houve ainda pronunciamento oficial. Ontem, Capriles disse que ainda esperava uma resposta do Tribunal Supremo de Justiça sobre o pedido de impugnação das eleições.
José Vicente Rangel, ex-vice-presidente de Hugo Chávez, afirmou que a oposição do país negocia a compra de 18 aviões dos Estados Unidos para uma operação contra a Venezuela.


Notícia da Folha de São Paulo. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

As mãos dos EUA sobre a região


As mãos dos EUA sobre a região
A administração Obama não aceita que a região mudou e objetiva afastar governos de esquerda; também o Brasil precisa se manter vigilante
Acontecimentos recentes indicam que a administração Obama intensificou sua estratégia de "mudança de regime" contra os governos latino-americanos à esquerda do centro, promovendo conflito de maneiras que não eram vistas desde o golpe militar apoiado pelos EUA na Venezuela em 2002.
O exemplo mais destacado é o da própria Venezuela na última semana. No momento em que este artigo está sendo impresso, Washington está mais e mais isolada em seus esforços para desestabilizar o governo recém-eleito de Nicolás Maduro.
Mas a Venezuela não é o único país vitimado pelos esforços de Washington para reverter os resultados eleitorais dos últimos 15 anos na América Latina.
Está claro agora que o afastamento do presidente paraguaio Fernando Lugo, no ano passado, também teve a aprovação e o apoio do governo dos Estados Unidos.
Num trabalho investigativo brilhante para a agência Pública, a jornalista Natalia Viana mostrou que a administração Obama financiou os principais atores do chamado "golpe parlamentar" contra Lugo. Em seguida, Washington ajudou a organizar apoio internacional ao golpe.
O papel exercido pelos EUA no Paraguai é semelhante a seu papel na derrubada militar, em 2009, do presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, caso no qual Washington dominou a Organização de Estados Americanos e a utilizou para combater os esforços de governos sul-americanos que visavam restaurar a democracia.
Na Venezuela, na semana passada, Washington não pôde dominar a OEA, mas apenas seu secretário-geral, José Miguel Insulza, que reiterou a reivindicação da Casa Branca (e da oposição venezuelana) de uma recontagem de 100% dos votos.
Mas Insulza teve de recuar, como teve de fazer a Espanha, única aliada importante dos EUA nessa empreitada nefanda, por falta de apoio.
A exigência de uma recontagem na Venezuela é absurda, já que foi feita uma recontagem das cédulas de papel de uma amostra aleatória de 54% do sistema eletrônico. O total obtido nas máquinas foi comparado à contagem manual das cédulas de papel na presença de testemunhas de todos os lados. Estatisticamente falando, não existe diferença prática entre essa auditoria enorme já realizada e a recontagem.
Jimmy Carter descreveu o sistema eleitoral da Venezuela como "o melhor do mundo", e não há dúvida quanto à exatidão da contagem.
É bom ver Lula denunciando os EUA por sua ingerência, e Dilma juntando sua voz ao resto da América do Sul para defender o direito da Venezuela a eleições livres.
Mas não apenas a Venezuela e as democracias mais fracas que estão ameaçadas pelos EUA.
Conforme relatado nas páginas deste jornal, em 2005 os EUA financiaram e organizaram esforços para mudar a legislação brasileira com vistas a enfraquecer o PT. Essa informação foi descoberta em documentos do governo americano obtidos graças à lei americana de liberdade de informação. É provável que Washington tenha feito no Brasil muito mais e siga em segredo.
Está claro que os EUA não viram o levemente reformista Fernando Lugo como um elemento ameaçador ou radical. O problema era apenas sua proximidade excessiva com os outros governos de esquerda.
Como a administração Bush, a administração Obama não aceita que a região mudou. Seu objetivo é afastar os governos de esquerda, em parte porque tendem a ser mais independentes de Washington. Também o Brasil precisa se manter vigilante diante dessa ameaça à região.


Texto de Mark Weisbrot, cidadão norte-americano, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Seria possível imaginar um chavismo sem Hugo Chávez?


Seria possível imaginar um chavismo sem Hugo Chávez?

M. Á. Bastenier

Há inúmeros motivos para em certos casos temer e em outros desejar que o resultado das eleições presidenciais de 7 de outubro próximo na Venezuela influa diretamente na experiência chavista. Hugo Chávez, inventor nos últimos 12 anos da refundação-revolução no país, está, como já se suspeitava mas ele não queria reconhecer, gravemente doente. Não é o primeiro caso na história. O presidente da Quinta República francesa, Georges Pompidou, sucessor do general De Gaulle, visivelmente inchado de cortisona em seus últimos meses de mandato, nunca chegou a publicar o que todo mundo adivinhava.
O presidente venezuelano insistiu repetidamente, desde que foi operado em junho passado em Havana de um câncer na pélvis, que sua recuperação tinha sido total. Poucos dias antes que admitisse na semana passada que o mal havia se reproduzido, e que fora operado pela terceira vez em Cuba, um dos que mais soam como eventual sucessor, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, ainda dizia com afetado sarcasmo que a oposição teria uma grande decepção sobre o estado de saúde do presidente. Mas a decepção deve ter sido dele, quando seu chefe falou. Lição recorrente: Hugo Chávez é tão pessoal como governante que nem a seus mais próximos havia contado como estavam as coisas.
Além disso, a convalescença deveria afastá-lo durante semanas de um governo ativo, tanto se permanecer na capital cubana como se regressar a Caracas, e nem por isso ele delegou poderes a seu vice-presidente, Elías Jaua.
As nomeações dos últimos meses indicam, entretanto, o que poderia ser um projeto de plano sucessório. Em novembro de 2010 Chávez escolheu o general Henry de Jesús Rangel Silva como comandante em chefe do exército, militar da linha ultrachavista, que ao ser designado já avisou que a milícia não aceitaria uma mudança de rumo em consequência das eleições, e que esteve com Chávez no fracassado golpe de Estado de 4 de fevereiro de 1992.
Assim como Rangel, os generais Hugo Carvajal, chefe da inteligência militar; Manuel Bernal, chefe da guarda presidencial, e Jesús Suárez, da 42ª brigada paraquedista, todos eles recém designados, participaram, como o próprio Cabello, da intentona golpista. Entre as últimas nomeações de peso, só a do general Clíver Alcalá, hoje chefe da 4ª Divisão, a mais bem dotada das forças armadas, com novíssimo material russo, não pertence ao círculo de 92.
Se houver sucessão, o Chavismo Dois ou pós-chavismo, no caso de o governo ganhar as eleições, vestirá uniforme. Chávez fracassou, ou nem sequer o propôs, em institucionalizar a chamada revolução bolivariana. O chavismo foi concebido como uma religião política, assim como o marxismo-leninismo na União Soviética e na Cuba castrista.
E para se institucionalizar, além de ter um sucessor reconhecível, o chavismo deveria ter sistematizado a fé, organizado o mito que tem como primeira deidade o libertador Simón Bolívar e tentado racionalizar politicamente um mistério, o socialismo do século 21, que hoje continua sendo somente um nome. Como diz o brilhante biógrafo do líder, Alberto Barrera: "Chávez é a emoção através da qual o povo se conecta com o poder". Mas o que há por trás desse vínculo com matizes de encantamento?
Por enquanto, um despotismo social, um estatismo autoritário que se define pela existência do líder-caudilho, possuidor do carisma popular que lhe permita interpretar, como fez, sua própria Constituição com a flexibilidade necessária para favorecer sua vitória nas urnas, mas que entretanto não levou o projeto bolivariano a suas últimas consequências: a ditadura.
Esse sistema híbrido, do qual o líder intelectual da oposição, Teodoro Petkoff, disse a "El País" que se encaminhava para "um totalitarismo 'light'" - tão híbrido quanto essa própria contradição em termos - é dificilmente institucionalizável, porque se não fechar a via ao poder de outras forças não pode garantir sua própria sucessão.
Em suas copiosas mas certamente desordenadas leituras, ignora-se se o presidente terá prestado atenção nas palavras de Maquiavel: "Não é salvação de uma república contar com um príncipe que governa com prudência - do que jamais se poderia acusar Chávez -, mas sim com um que a regule de tal modo que, mesmo quando falte, fique preservada". Por isso é difícil imaginar um chavismo sem Chávez.
 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



sábado, 16 de julho de 2011

Na Venezuela, a revolução bolivariana enfrenta o projeto da moradia social e o desperdício

Na Venezuela, a revolução bolivariana enfrenta o projeto da moradia social e o desperdício

Marie Delcas
Enviada especial a Caracas

A oposição denuncia a improvisação do governo

O governo venezuelano, em nome da revolução bolivariana, tem grandes ambições. A mais recente das políticas sociais, a Grande Missão “Vivienda” (moradia) planeja construir 2 milhões de moradias populares no país até 2017. A oposição vê ali somente uma promessa eleitoreira. No fim de 2012, Hugo Chávez disputará um quarto mandato presidencial, se sua saúde lhe permitir. O objetivo de sua missão foi estabelecido em 153 mil moradias para 2011 e 200 mil para 2012. No início de julho, o ministro da Energia e do Petróleo, Rafael Ramirez, afirmava que 16.964 unidades haviam sido entregues durante o primeiro semestre do ano.

Em Caracas, crianças jogam futebol no subsolo de um bloco de tijolos e concreto. Era para o Sambil Candelaria se tornar um desses gigantescos shopping centers que enlouquecem os venezuelanos. Mas, no final de 2008, o presidente Chávez desapropriou o dono do imóvel, que estava prestes a ser inaugurado. Desde dezembro passado, cerca de 2.300 pessoas afetadas pelas chuvas moram ali. “Vamos sair em breve”, afirma Isaura Sanchez, mãe de quatro filhos pequenos. “’Meu comandante’ dará casas para todo mundo. Vimos na televisão. Elas estão quase prontas”. Assim como Isaura, 100 mil famílias de vítimas esperam para ser realojadas “com prioridade”. Isso mostra como a Missão Vivienda cria esperanças.

Os barrios, confusão de blocos de cimento, chapas, ruelas estreitas e escadas íngremes, cercam Caracas. Os venezuelanos carentes não moram melhor do que seus vizinhos latino-americanos. Sob pressão do crescimento demográfico e da incúria de sucessivos governos, o déficit de moradia foi se aprofundando cada vez mais. “Estima-se hoje que a demanda seja de três milhões de unidades. Seria preciso construir 300 mil moradias ao ano. Mas desde que Hugo Chávez chegou ao poder, a média anual tem sido de 30 mil unidades,” explica Rafael Uzcategui, da organização de direitos humanos Provea. “Somente o presidente Romulo Betancourt fez pior, no início dos anos 1960.” Na época havia 7 milhões de venezuelanos, e esse número quadruplicou desde então.

O atual governo bem que tentou enfrentar o problema da moradia. Mas a improvisação em matéria de políticas públicas limitou as realizações. Desde 2005, onze ministros passaram pelo novo ministério da Moradia e da Habitação.

Os urbanistas acreditam que mais de 40% do tecido urbano de Caracas cresceu sem planejamento ou regulação: a “autoconstrução” é a norma nos barrios. “O governo de Hugo Chávez quis dinamizar as iniciativas populares. Foi dada uma grande verba aos conselhos comunitários, às associações de bairro e outras instâncias participativas. Mas por falta de conhecimento e de assessoria técnica, a verba foi desperdiçada”, aponta Uzcategui.

Na avenida Las Acacias, entre um prédio residencial e uma torre de 25 andares, um gigantesco cartaz anuncia a construção de 146 moradias populares. Os buldôzeres trabalham. A três ruas de lá, o mesmo cartaz anuncia a construção de 140 casas. Mas lá, está tudo parado. “Podemos colocar outra Caracas dentro de Caracas”, afirmava Chávez diante das câmeras, para justificar sua política urbana. Mas será que os serviços públicos da capital conseguirão acompanhar? Os engarrafamentos ali são intermináveis, o transporte público está sobrecarregado e os cortes de energia – aos quais o resto do país está sujeito – são preocupantes.

“Só podemos aplaudir a prioridade dada hoje à moradia”, segundo Uzcategui. “Mas o voluntarismo não basta. Anunciar a construção de 2 milhões de moradias sem falar em estrutura coletiva, esgoto, transporte, escolas, campos de futebol, rede elétrica, não tem sentido”. Um militante do Partido Socialista ironiza: “A esquerda por muito tempo criticou os tecnocratas. Gostaríamos de ter alguns deles hoje. Ideologia não faz nascer tijolos.”

“Dois milhões de moradias para famílias de três ou quatro pessoas, isso quer dizer que o governo promete realojar, até 2017, de 6 a 8 milhões de pessoas. Não é realista”, acredita José Carquez, gerente de uma loja de materiais de construção. Um dos problemas, e não é dos menores, é que esses materiais de construção muitas vezes estão em falta. “O cimento chega de maneira muito irregular, e há quatro meses não vemos barras de ferro. Só as encontramos no mercado negro, pagando duas vezes mais”, afirma Carquez. A nacionalização das empresas metalúrgicas de Guayana e a das empresas de cimento – entre elas a francesa Lafarge – agravaram o antigo problema do abastecimento.

“O Estado não pode resolver sozinho a crise da moradia”, acredita o presidente da Câmara Venezuelana da Construção, Juan Francisco Jiménez, que deseja uma grande aliança público-privada. “Paradoxalmente, Hugo Chávez, que expõe ao desprezo público os empresários venezuelanos, não hesita em fazer negócios com o hipercapitalismo russo ou chinês”, observa Uzcategui. Dezenas de acordos foram assinados com a Rússia, a China, Cuba, o Uruguai e o Irã para a construção de moradias. Mas, também nesse caso, os resultados tardam a chegar.

Para Teodoro Petkoff, diretor do jornal de oposição “Tal Cual”, “as pessoas vão se conscientizar da ineficácia absoluta desse governo. A Missão Vivienda pode muito bem virar uma faca de dois gumes”. Um diplomata latino-americano analisa: “Às pessoas que hoje se inscrevem na lista dos solicitantes de moradia, o governo dá um certificado... e a esperança de ver algum dia uma casa só deles. No final de 2012, Hugo Chávez dirá: se a oposição vencer, seus certificados não valerão mais nada. E as pessoas votarão em Chávez.” Isaura é prova disso.


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