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sábado, 4 de junho de 2016

Desigual por excelência

Em audiência judicial na Suécia, um advogado brasileiro não compreendeu a manifestação da parte contrária. Dirigiu-se à juíza, em português: "Excelência, gostaria de entender melhor a pergunta...".
Após sua manifestação, a intérprete o abordou: "Olha, tomei a liberdade de não traduzir o termo 'Excelência'".
Explicando o quanto o princípio da igualdade entre as pessoas é enraizado no país, continuou: "Aqui nós chamamos os magistrados pelo cargo que ocupam, como 'juíza', ou simplesmente 'você'".
O advogado sem dúvida teria vergonha de contar à tradutora o caso de sua colega num fórum paulistano, que chamou o juiz de "senhor" e foi interrompida. "Não, doutora. Aqui é Excelência. Ou a senhora quer trocar de lugar comigo?"
Aprende-se cedo, nas carreiras jurídicas brasileiras, a usar o tratamento "adequado". Em português claro, a usar uma expressão capaz de marcar a suposta distância que separa os dois interlocutores –a autoridade sobranceira e o cidadão rasteiro.
Dá-se o contrário em Estocolmo. Eliminam-se, inclusive no que parecem pormenores do cotidiano, as diferenças entre as pessoas. Não será por coincidência que a Suécia se situa entre os países com a menor desigualdade de renda, ao passo que o Brasil se acomoda no extremo oposto dessa lista.
Para não sair do Judiciário, os ministros do Supremo Tribunal Federal estão prestes a ganhar um aumento em seus salários, que passará de R$ 33,8 mil para R$ 39,3 mil, ou cerca de 20 vezes o rendimento médio dos assalariados.
Os integrantes do Supremo da Suécia também recebem em torno de R$ 40 mil. Lá, contudo, essa quantia representa pouco mais de duas vezes o vencimento médio no país.
Modificar esse quadro desigual levará muito tempo, e a tarefa depende de um esforço conjunto dos mais variados setores da sociedade. Alguns grupos, porém, têm ao alcance das mãos a oportunidade de iniciar o processo de mudança.
Os ministros do nosso Supremo são um ótimo exemplo. Gozando de invejável estabilidade profissional, e ocupando a cúpula de uma instituição que ainda conta com prestígio social, poderiam abrir mão dos inúmeros benefícios que se acrescentam a seus generosos proventos mensais.
Se não estiverem prontos para imitar seus colegas suecos, que não desfrutam de nenhum auxílio além do próprio salário, os supremos brasileiros poderiam ao menos modificar o ridículo artigo 16 do Regimento Interno do STF.
Ali atribui-se ao ministro da corte o direito, garantia ou prerrogativa de receber o tratamento de "Excelência" –além da conservação de título e "honras correspondentes, mesmo após a aposentadoria".
Um cidadão sueco certamente não entenderia como alguém pode se julgar tão melhor que os demais.


Texto de Uirá Machado, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Por falta de presos, Suécia fecha quatro penitenciárias

Por falta de presos, Suécia fecha quatro penitenciárias
RICHARD ORANGEDO "GUARDIAN", EM MALMÖ

A Suécia está passando por tamanha queda no número de prisioneiros, nos últimos dois anos, que as autoridades da Justiça do país decidiram fechar quatro prisões e um centro de detenção.
"Vimos um declínio extraordinário no número de detentos", disse Nils Oberg, diretor de Serviços Penitenciários do país. "Agora temos a oportunidade de fechar parte de nossa infraestrutura".
O número de presidiários na Suécia, que vinha se reduzindo em cerca de 1% ao ano desde 2004, caiu 6% de 2011 para 2012 e deve registrar declínio semelhante em 2014.
Como resultado, o serviço penitenciário fechou neste ano prisões nas cidades de Aby, Haja, Bashagen e Kristianstad, duas das quais devem ser vendidas e as duas outras transferidas a outras instituições governamentais para uso temporário.
Oberg declarou que, embora ninguém saiba ao certo por que caiu tanto o número de detentos, ele acredita que a abordagem liberal adotada pela Suécia quanto às prisões, com forte foco na reabilitação de prisioneiros, tenha influenciado o resultado.
Os tribunais suecos vêm aplicando sentenças mais lenientes a delitos relacionados às drogas, depois de uma decisão do supremo tribunal do país em 2011, o que explica ao menos em parte a queda súbita no número de novos presidiários.
De acordo com Oberg, em março deste ano havia 200 pessoas a menos servindo sentenças por crimes relacionados a drogas do que em março do ano passado.
Os serviços penitenciários suecos preservarão a opção de reabrir duas das prisões desativadas caso o número de detentos volte a subir.
Hanns Von Hofer, professor de criminologia na Universidade de Estocolmo, disse que boa parte da queda no número de detentos pode ser atribuída a uma recente mudança de política que favorece regimes de liberdade vigiada em caso de pequenos roubos, delitos relacionados a drogas e crimes violentos.


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 2 de julho de 2013

Pagar por sexo na Suécia dá cadeia


Não é um bom lugar para se esperar. A rua é larga, ventosa e pouco iluminada. O tempo também não ajuda. Faz frio e a noite é desagradável, úmida. Mas ela não parece se importar. Agita o rabo-de-cavalo louro e fecha um pouco mais o colete de couro branco que usa sobre uma peça preta de gola rulê, combinando com as calças e as botas.
Segura um telefone ligado a fones sem fio. Fala por alguns segundos e volta a percorrer a calçada, de um lado para o outro. A confluência entre Malmskillnadsgatan e Master Samuelsgatan. Apenas uma esquina. Uma faixa de cimento em pleno centro de Estocolmo, a dois passos da área comercial, que é sinônimo de prostituição. O pouco que resta à vista na capital da Suécia, país que desde 1999 pune quem pagar para obter serviços sexuais.
Ali, as estradas não são margeadas por clubes. E se há contato de compra e venda não é feito sob a luz dos neons. Para os clientes não é fácil: se forem descobertos, arriscam-se à pena de um ano de prisão ou uma multa elevada. A premissa sueca é que se não houver demanda não haverá oferta. Um modelo que esse país defende e exportou para outros como Noruega, Islândia e Cingapura. Agora, França e Irlanda estudam seguir seus passos. A cidade espanhola de Valência também deu luz verde há alguns dias para uma norma municipal que prevê sanções para os clientes, mas não para as prostitutas.
Na Suécia, desde que a lei entrou em vigor, cerca de 5.700 pessoas --todos homens, com raras exceções-- foram detidas por comprar sexo ou tentar. Deles, pouco mais da metade foi condenada, mas nenhum entrou na prisão. Escaparam das grades pagando multas de pelo menos um terço de sua renda durante dois meses.
"Não se trata só de condenações. A lei busca uma mudança social, servir de exemplo. E está conseguindo", afirma a delegada Kajsa Wahlberg, relatora nacional contra o tráfico de pessoas com fins de exploração sexual. Dez anos depois que a lei entrou em vigor, o número de compradores de sexo havia diminuído de 13,6% para menos de 8% da população, segundo dados do Instituto Sueco. E embora a norma --que mais de 70% da população apoiam-- não tenha conseguido trancafiar os clientes, levou a uma redução palpável da prostituição de rua: antes da lei, cerca de 600 mulheres trabalhavam nas ruas de Estocolmo diariamente; hoje não passam de dez, segundo estimativas da polícia.
A mulher do rabo-de-cavalo louro é uma delas? Subiu em um carro vermelho que seguiu em direção a uma autopista. Só trocou algumas palavras com o motorista. É possível que seja um amigo ou parente. Mas também pode ser que o homem tenha contatado com ela na internet e a tenha apanhado na rua. Porque na Suécia os bordéis se transferiram para a rede. Uma realidade da qual as autoridades estão conscientes e que a associação Rose Alliance, uma das poucas vozes que censuram publicamente a norma, considera efeito da lei. Essa organização de antigas trabalhadoras sexuais afirma que a prostituição hoje é menos visível e portanto menos segura; e que a regulamentação contribui para estigmatizá-la. "Existem mulheres que se dedicam a isso voluntariamente. Há exploração e tráfico, mas nem todas são vítimas", dizem.
Patrick Cederlöff, coordenador nacional contra o tráfico, discorda. Antes de ocupar esse cargo, esse homem musculoso de cabelo raspado passou anos trabalhando nos serviços sociais de Estocolmo. Desde então, comenta, acredita mais firmemente que a prostituição --que na Suécia é exercida sobretudo por mulheres do Leste Europeu, da Tailândia ou da Nigéria-- não é uma opção "realmente livre".
"Sob essa ideia se esconde a vulnerabilidade, a pobreza. E também o tráfico e a exploração sexual", diz. Cederlöff desmente que a lei --que habilitou meios como telefones anônimos para denunciar quem paga por sexo-- tenha empurrado as mulheres para a clandestinidade dos hotéis ou apartamentos; e para os anúncios na web. Responsabiliza pela mudança principalmente as novas tecnologias.
As autoridades também avançam por aí. Uma equipe de policiais especializados rastreia a rede dia e noite em busca desses anúncios que lhes permitirão prender cafetões e clientes. Seus escritórios estão na chefatura central da polícia de Estocolmo, muito perto da delegacia de Wahlberg, cautelosa com tudo o que signifique mostrar esse trabalho em campo. É uma mulher alta e enérgica, de olhos azuis e cabelo louro curto. Antes de ser relatora, investigou crimes sexuais como inspetora da polícia judicial. "O comércio sexual é um meio favorável para o crime organizado. Permanece subterrâneo, movimenta enormes quantidades de dinheiro e através dele os proxenetas e as redes de tráfico lavam milhões."
A seus olhos e aos da lei sueca, alguém que paga por sexo não só atenta contra a dignidade das mulheres como também contribui para que essa arquitetura criminosa prolifere. Desde que a lei entrou em vigor, cerca de 200 pessoas foram condenadas por proxenetismo na Suécia. Cerca de 40 por tráfico de seres humanos com fins de exploração sexual, desde 2002, quando foi incluído esse crime que implica trasladar a pessoa por meio de enganos, coação ou à força para explorá-la.
Assim como ocorre na Espanha, não é fácil que as mulheres que foram exploradas deponham contra seus carrascos. Para apoiá-las e fomentar essa colaboração, explica Ulrika Rosvall, especialista do Instituto Sueco, o governo tem programas de acolhimento e reinserção social --e também programas para conscientizar os clientes. Também oferece para elas a oportunidade de voltar a seus países com o projeto Safe Trip (Viagem Segura), coordenado por Cederlöff e que se apoia em ONGs locais, que trata de que as mulheres possam retornar sem temor de que sejam encontradas, ou suas famílias, pelos que as exploravam.
A comissária Wahlberg explica que a Suécia deu um passo além: buscou inclusive uma solução específica para as nigerianas, que muitas vezes são subjugadas pelo medo atroz do vodu com que as máfias as ameaçam. Agora as autoridades suecas colaboram com "pessoas capazes de desfazê-lo", afirma a relatora. Não é só encurralar os clientes. Trata-se de cobrir todos os buracos, diz.

Modelos jurídicos

Na Europa convivem três modelos de regulamentação da prostituição: o chamado exemplo sueco, abolicionista; o holandês, legalista; e as normas que só proíbem o proxenetismo, como na Espanha.
• A Suécia penaliza desde 1999 todo aquele que pague para ter sexo. Foi pioneira nesse modelo jurídico, que dez anos depois foi copiado por Islândia, Cingapura, Israel e parte da Coreia. A Noruega também, com uma novidade: são processados os que fazem turismo sexual.
• Finlândia. Pune a compra de serviços sexuais, embora só aqueles em que a prostituta seja vítima das redes de tráfico humano.
• Holanda e Alemanha. São o modelo oposto; ali, a compra de serviços sexuais não é punida, e sim permitida em determinadas zonas e lugares. Na Holanda as prostitutas pagam impostos, têm direitos e obrigações.
• Espanha. A prostituição é ilegal. Alguns decretos municipais, como o de Barcelona, penalizam tanto clientes quanto prostitutas. Outros, como em Valência, seguem o modelo sueco e punem só o comprador de sexo.


Maria R. Sahuquillo, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves