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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Como FHC enganava os outros e a si próprio

Há um mês estou debruçado, na reta final de uma biografia que estou escrevendo.
Olhando os guardados, encontrei uma entrevista preciosa com o ex-Ministro Antônio Dias Leite.
Primeiro, deu um longo depoimento para meu livro. Depois, permitiu-se discorrer sobre o quadro político e sobre a maneira do PSDB e do DEM criar uma oposição consistente ao PT.
A entrevista foi em janeiro de 2007.
Dias Leite foi um dos mais interessantes homens públicos brasileiros. Assessorou San Tiago Dantas, quando Ministro da Fazenda de Jango. Foi seu colega na Universidade do Brasil, futura Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) e foi Ministro dos governos militares. Foi também um dos idealizadores do maior projeto industrial brasileiro dos anos 70, a Aracruz Celulose.
Na época escreveu um livro sobre a economia brasileira. Sua receita para o desenvolvimento:
- Tem que mostrar com simplicidade as ideias. As pessoas muito especializadas se aprofundam em um ponto só e perdem a visão geral. Esses economistas dessa geração de 40, 50 anos (basicamente os economistas do Real) todos vêm com certezas absolutas. Ciência não é isso.
Dias Leite trabalhou com Jorge Kafuri, da Ecotec, uma das primeiras consultorias brasileiras, precedendo a Consultec. Kafuri era admirador de Vilfredo Pareto, um dos grandes economistas do século 19, um dos primeiros a estudar o fenômeno da distribuição da riqueza. E gostava de repetir uma máxima de Pareto: "Uma teoria é boa até que se encontre uma outra explicação que explique melhor a realidade".
- Principalmente, enfatizava Dias Leite, não se pode perder de vista a realidade. Um plano econômico só é bom quando é politicamente viável de fazer.
Na época, em pleno pós-mensalão, Dias Leite analisava o quadro político com uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se o governo Lula degringolaria ou não. A certeza é que seria muito difícil o outro lado se organizar.
- PSDB e PFL são bichos diferentes, o PMDB também. Se não fizerem coalizões em torno de programas, nada irá para frente.
Sustentava que Fernando Henrique Cardoso fracassou no segundo governo por causa de compromissos assumidos.
Quando se preparava para o segundo mandato, FHC encontrou-se em um evento com Dias Leite. O ex-Ministro alertou-o sobre a necessidade de um plano mais organizado. Conversaram por uma hora. Aí pediu que fizesse por escrito.
- Faça por escrito e desenvolva mais suas ideias.
Foi feito. Dias Leite mobilizou vários amigos, elaboraram um documento de mais de vinte páginas com conceitos de uma nova estratégia para o Brasil e foi até FHC. Chegando lá, o presidente ligou na sua frente para o Ministro da Fazenda Pedro Malan e pediu que recebesse Dias Leite.
Dias já o conhecia. Tinha presidido a banca do concurso de Malan. Entregou o trabalho.
- Nunca mais ouvi falar desse papel, nem do Pedro, nem do FHC.
A inação administrativa de FHC não tem paralelo na história moderna do país.
Episódio semelhante ocorreu em pleno "apagão".
Em determinado dia, recebo um telefone do então governador do Mato Grosso Dante de Oliveira.
- Quero te passar em primeira mão. Estive agora com o presidente Fernando Henrique e apresentei uma proposta para ele, para enfrentar a crise, que foi aceita.
Conhecendo o estilo, perguntei se ele tinha certeza de que seria aceita.
- Total. Na minha frente ele ligou para o Armínio Fraga (então presidente do BC) e disse-lhe para estudar atentamente a proposta que ele enviaria mais tarde.
Conhecendo o estilo, ousei dar um conselho para Dante: espere algum tempo até ter certeza de que a proposta foi aceita, para não fazer papel de bobo.
Três meses depois outro telefonema de Dante:
- Você tinha razão, mas agora foi.
- Foi como.
- Na minha frente ele ligou para o Armínio e deu-lhe um esporro por não ter obtido retorno da proposta.
Ponderei mais uma vez:
- Você tem certeza de que o Armínio estava no outro lado da linha?
Era obviamente outro blefe de FHC.
Quando saiu, FHC leu uma biografia de Franklin Delano Roosevelt e vangloriava-se de uma semelhança com ele: o de falar A para os políticos e fazer B.
Foi a única semelhança. Do essencial - o New Deal de Roosevelt - FHC não captou nada. Sempre foi um folgazão sem nenhum apego ao trabalho e, mesmo sendo de família de militares que ajudaram na construção da nacionalidade, nunca almejou nada mais do que o brilho fugaz instantâneo.
Os grandes estadistas até podiam usar o engodo como estratégia para atingir objetivos maiores. Para FHC era apenas o engodo pelo engodo, para reafirmar, para ele próprio, sua esperteza.

Reprodução do Blog do Luís Nassif.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FHC, os pobres, o voto e a falta de informação

A vantagem de Dilma sobre Aécio no Nordeste tirou do armário a velha conversa do separatismo no Brasil e o melhor do nosso racismo maroto, nosso racismo moleque.
As manifestações são as mais desprezíveis possíveis, mas podem ser resumidas no seguinte: o bolsa família é para miserável burro morto de fome vagabundo vão viver às próprias custas e não encham nosso saco senão não daremos mais nosso dinheiro de impostos para vocês meritocracia.
Fulano escreveu, por exemplo, que “esses nordestinos desgraçados parecem que não sabe [sic] que a culpa da falta de água é da lazarenta da Dilma”. Outro, que “nordestino safado vota em Dilma vamos fazer outro país”.
Quando a coisa parecia não poder piorar, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu sua valiosa contribuição ao debate da, digamos, “qualificação” do voto.
Numa entrevista a Josias de Souza e Mario Magalhães, do Uol, FHC conseguiu classificar os eleitores petistas (43,3 milhões de almas) como uma imensa massa desprovida de discernimento.
“O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”, afirmou.
O PT está “apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados [...]. Geralmente é uma coincidência entre os mais pobres e os menos qualificados.” Se há uma falha do PSDB, considera o ex-presidente, é de não conseguir dialogar com esse pessoal.
Foi-lhe recordado que aquela abordagem ecoava a do brigadeiro Eduardo Gomes e da UDN na campanha para a presidência de 1950. O brigadeiro xingou de “marmiteiros” os eleitores do rival Getúlio Vargas.
Essa eleição foi pródiga em trazer à luz questões prementes. Levy Fidelix, por exemplo, prestou um enorme serviço ao combate à homofobia — embora involuntário — com sua diatribe homofóbica muito louca num debate.
FHC ganha o status de guru do que o jornalista Elio Gaspari chama de “demofobia”, medo do povo. Além da generalização estúpida sobre os adversários, passa a ideia de que o pessedebista é o oposto: um tipo bem informado e, por coincidência, mais rico.
Provavelmente, também por coincidência, de São Paulo, já que os desfavorecidos de Minas e Rio deixaram Aécio Neves em segundo e terceiro lugares, respectivamente. Já no Nordeste é aquela lama moral e intelectual.
Bastaria um papo com um taxista nos Jardins para Fernando Henrique mudar de ideia sobre esse personagem que votou em seu partido. Ou dar uma boa olhada no Facebook para ver a quantidade de aecistas despejando clichês higienistas num idioma remotamente parecido com o português, que beleza.
Aécio teve uma sacada interessante — ele ou seu marqueteiro — ao reabilitar FHC e desfilar com ele por aí. Puxou aplausos para o homem na Globo. Em 2010, Serra fez questão de escondê-lo. Em circunstâncias normais, alguém com um discurso fora de órbita como esse seria novamente posto na geladeira. Como não vivemos em circunstâncias normais, FHC passa a ser mais mais atual do que nunca.

Reprodução de texto de Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

FHC, um presidente bom de bico

Nas redes sociais popularizou-se a figura do troll. São perfis do Twitter, Facebook e comentaristas de sites jornalísticos e blogs que entram para provocar. Ninguém está a salvo deles, de Dilma a Aécio, do PT ao PSDB, todos são vítimas dos trolls do outro lado.
Um dos aprendizados da rede é que com troll não se mexe. O único objetivo do troll é provocar a reação contrária. Ele tem compulsão por provocar repulsa, indignação e outros sentimentos menores. Ignorando-o, recolhe-se à sua insignificância. Assim como animais em zoológicos, tem que vir acompanhado de placas tipo “não os provoque”, “não lhes dê amendoim”.

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As próximas semanas serão o reinado de trolls de todos os lados. O segundo turno exacerbará os ânimos, desenterrará dossiês e baixarias, preconceito e ofensas de modo geral. Haverá uma guerra sem quartel entre “petralhas” e “coxinhas”.
A perspectiva de baixarias reforça a responsabilidade daqueles que precisariam ser figuras referenciais, acima das paixões e das baixarias.
Por isso, é incompreensível a atitude do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, comportando-se como um troll, ao taxar os eleitores de Dilma de desinformados e moradores dos “grotões”. Tudo isto em um ambiente em que a polarização norte/nordeste-sudeste estimula atitudes bairristas agressivas de lado a lado.

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Há muito FHC abdicou da postura responsável que se exigiria de um ex-presidente, se é que algum dia já teve. Em alguns momentos extremamente tensos na história recente, quando a crise política parecia engolir as instituições, o impulsivo Fernando Collor, o errático Itamar Franco, pouco antes de morrer, o polêmico José Sarney, nenhum deles abdicou da responsabilidade e da postura que se exige de ex-presidentes, procurando apaziguar ânimos e apontar rumos. Menos Fernando Henrique Cardoso.
Coube a ele papel central na cooptação da ultradireita que emporcalhou o PSDB, na agressividade sem limites personificada na candidatura José Serra.
Em nenhum momento age às claras. Mas sempre estimula, por sinais, a face mais tenebrosa de seus aliados.

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E em nome de quê? Da vaidade insuperável de quem nunca conduziu, mas sempre foi conduzido pelos fatos e por uma visão oportunista da vida.
Quando teve espaço na esquerda, esquerdista foi, assim como seu alter ego José Serra apresentava-se como desenvolvimentista.
Assumiu o governo por acidente – e pela impulsividade de Itamar – e passou pelo governo em brancas nuvens. Plano Real, reformas, privatização, criação de uma dívida pública monumental, tudo isso passou ao largo dele.
De esquerdista tornou-se um neoliberal, não um pensador à altura do liberalismo, mas um mero repetidor de mantras e bordões, sem ao menos entender as transformações de seu próprio governo.

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É ilusória sua pretensão de que Aécio subiu nas pesquisas por defender o seu legado. A votação em Aécio é claramente uma manifestação antipetista e anti-Dilma, jamais pró-FHC.
Sociólogo, a convivência de FHC com alguns dos mais ilustres intelectuais do mundo jamais ajudou-o a perceber o novo, a entender o fenômeno das grandes inclusões sociais nos países emergentes ou as mudanças políticas trazidas pelas redes sociais.
A medida de sua superficialidade pode ser dada por seus comentários a uma biografia de Franklin Delano Roosevelt. Nela, falava-se da enorme visão prospectiva de Roosevelt e de sua malícia política – de iludir adversários e aliados falando A e pensando B.
Imediatamente FHC se disse à altura de Roosevelt porque ele também sabia levar adversários e aliados no bico. Só faltou fazer o seu New Deal para se equiparar a Roosevelt.


Reprodução do Blog do Luís Nassif