domingo, 8 de março de 2026

Morre António Lobo Antunes, um dos maiores escritores de Portugal, aos 83


O romancista português António Lobo Antunes, um dos escritores lusófonos mais lidos e traduzidos do mundo, morreu aos 83 anos nesta quinta-feira, segundo sua editora.

O autor recebeu em 2007 o Prêmio Camões, a distinção literária mais importante da língua portuguesa, e era um dos poucos de seu país a ser cotado ao prêmio Nobel de Literatura.

Nos 43 anos entre 1979 e 2022, Lobo Antunes escreveu 32 romances, nunca algo curto e leve, sempre livros longos e impactantes. Cada um parece ter levado dez anos para ser escrito e demandar um ano para ser lido —ele nos deu tudo de si e exigiu tudo de nós.

Lobo Antunes nasceu em 1942, formou-se em medicina e serviu como médico de campanha na guerra colonial de Angola, de 1971 a 1973, na experiência definidora de sua vida.

Graças ao inesperado sucesso de seus primeiros livros a partir do final daquela década, largou a medicina e, desde então, não fez mais nada além de escrever romances. "Não se pode escrever a biografia de um escritor porque ele é muita gente", disse.

Seus livros não têm enredo bem definido nem personagens marcantes, o que colabora para aumentar sua fama de difícil e inacessível. Mas poucas obras literárias recentes valem tanto o esforço de explorá-las. "Não estou no mundo para ajudar meus admiradores a atravessar a rua", disse ele.

Quem lê um romance de Lobo Antunes sai arrebatado por vozes, por situações, por atmosferas. Na verdade, pela forma em si, por palavras transformadas elas mesmas em protagonistas.

Seu estilo fragmentado e polifônico, inefável e absurdo, não pode ser separado da experiência fundante da guerra. Assim como as repetições quase hipnóticas de palavras e frases em seus livros, também é da natureza do trauma parecer que volta a acontecer o tempo todo.

Como descrever um horror existencial que transcende o tempo e as palavras? Lobo Antunes criou um novo estilo porque os que estavam à sua disposição não davam conta de expressar tamanha entropia.

Então, como ler sua obra? Abdicando da necessidade de entender o que está acontecendo. Como em uma iluminação instantânea depois de décadas de meditação, o efeito de seus romances é ao mesmo tempo súbito e cumulativo. De repente, cenas e falas aparentemente esparsas e desconexas se unem para formar um único painel humano, impactante e coerente.

Se poesia é o que se perde na tradução, um romance de Lobo Antunes é aquilo que se perde na tentativa de resumo. Nas palavras dele, "enquanto se lê por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro".

É possível separar seus romances em três ciclos: autobiográfico, português e intimista.

O ciclo autobiográfico é formado pelas três primeiras obras, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", ambos de 1979, e "Conhecimento do Inferno", de 1980. O protagonista é um alter ego do autor, um médico psiquiatra que participou da guerra colonial em Angola.

Embora já ensaiem o caráter polifônico dos romances posteriores, ainda são obras de uma só voz. Podem servir como excelente porta de entrada, com uma ressalva: são apenas a ponta de um vasto iceberg.

O segundo ciclo inclui obras que dialogam diretamente com a história de Portugal. São romances como "Fado Alexandrino", de 1983, em que veteranos da guerra colonial se reúnem para conversar sobre os velhos tempos, e "Manual dos Inquisidores", de 1996, que mostra a decadência de uma rica família salazarista depois da Revolução dos Cravos.

Há também "O Esplendor de Portugal", de 1997, sobre as difíceis escolhas de uma família portuguesa na Angola pós-independência, e "Exortação aos Crocodilos", de 1999, história de um grupo de militares terroristas inconformados com a revolução.

Destaca-se o realismo mágico luso-tropical de "As Naus", de 1988, no qual, junto com os retornados —portugueses nascidos nas colônias que regressam, após a independência, a um país que muitas vezes nem conheciam –, voltam também algumas das maiores figuras históricas do império ultramarino, como Camões, Cabral e são Francisco Xavier.

Uma progressiva complexificação, nos últimos 20 anos, culmina no terceiro ciclo de Lobo Antunes, o intimista.

"Não existe narrativa no sentido comum do termo", afirma ele. "Apenas longos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos."

Suas obras vão se tornando difíceis de distinguir uma das outras, como se cada uma fosse um novo capítulo do mesmo romance infinito.

Os romances do segundo ciclo são mais experimentais que os do primeiro e menos abstratos que os do terceiro. Os fatos históricos oferecem uma estrutura que quase se aproxima de um enredo formal, funcionando como uma rede de segurança para o salto de fé que a leitura exige.

Seu 32º e último romance, "O Tamanho do Mundo", publicado em Portugal em 2022 e ainda inédito no Brasil, seria recebido como revolucionário em qualquer contexto onde já não existissem 31 romances anteriores de Lobo Antunes para comparação.

Seu tema é outro horror inefável: a solidão da velhice. Verdadeiro "Memorial de Aires" do autor, é um réquiem digno de se ombrear entre as demais obras de uma carreira literária que parece uma catedral medieval —gigantesca e imponente, repleta de detalhes impressionantes que raramente reparamos ao primeiro contato.

Nas últimas décadas, o leitorado português se acostumou a esperar um novo livro de Lobo Antunes sempre em outubro. Em 2024, a segunda edição expandida do livro de entrevistas "Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva, ajudou a explicar a ausência do escritor.

Ele estaria incapaz de escrever por estar sofrendo de demência desde 2021, agravada pelo isolamento durante a pandemia. A revelação provocou polêmica: tinha Céu e Silva o direito de divulgar uma condição médica que a própria família mantinha em segredo?

Seu último livro publicado em vida foi "As Outras Crônicas", volume editado em 2024. Sua editora, a Dom Quixote, prepara uma coletânea de poemas do autor ainda para este ano.

"Uma obra de arte boa é uma vitória sobre a morte," escreveu Lobo Antunes. Hoje, no dia de sua morte, cabe a nós reconhecer essa vitória.


Reprodução de texto de Alex Castro na Folha de São Paulo

terça-feira, 3 de março de 2026

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump'


Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Quanto ao mais, Trump pegou gosto por bomba e ameaças. De março a maio de 2025, atacou os houthis, do Iêmen (grupo apoiado pelo Irã), que atacam Israel e navios. Em dezembro, bombardeou a Nigéria, supostamente autorizado pelo governo nigeriano a atacar grupos islâmicos.

Desde 2025, afunda barcos de "narcoterroristas" no Caribe e no Pacífico. Neste ano, foi a vez da Síria. Estrangulou a Venezuelasequestrou Nicolás Maduro e mantém uma faca no pescoço da ditadura chavista, a quem dá ordens. Ameaçou México e Colômbia com ataques a "narcoterroristas". O próximo alvo é Cuba.

Trump quer dizer, enfim, que ninguém está seguro. Imagina que pode obter "deals" (acordos e negócios) com guerras em que americanos não morrem. O caso do Irã é mais enrolado.

O Irã é um país grande e ditadura enraizada, com vários centros fortes de poder: aiatolás, Guarda Revolucionária, tecnocracia e empresários que se dão bem no regime. Parte da população é religiosa e, como a elite ideológica, avessa a "valores ocidentais" e nacionalista. Apesar da revolta recente, não há oposição organizada. Os aiatolás preferem matar e morrer a fazer concessões.

Vitórias decisivas, quando há vitórias, ou rendições são mais e mais raras. Exigem destruição da força armada inimiga e da infraestrutura; morte ou cooptação de elites do poder (desfazimento do Estado). Os EUA fizeram algo assim no Iraque (2003), mas tiveram de invadir. O "Ocidente" fez em parte isso na Líbia e na Síria, deixando caos e barbárie, ou foi derrotado, como no Afeganistão.

Uma guerra decisiva toma tempo. No Oriente Médio, pode causar danos a interesses ocidentais, como no petróleo, embora o risco maior não se concretize desde 1979 (Revolução Iraniana). Apesar de tentativas, nunca houve o famoso fechamento do estreito de Hormuz (por onde passa um quarto do petróleo mundial transportado por mar).

Em 2019, um ataque de Irã e/ou houthis à Arábia Saudita arruinou a produção de 5% do petróleo mundial. O preço do barril subiu 15%, mas caiu no mês seguinte, pois os sauditas deram um jeito. Além do mais, a economia do petróleo mudou, com mais produção nas Américas. Mas ainda se trata de risco econômico, o mais temido por Trump.

A força militar do Irã vira pó com os ataques de Israel e EUA. Os iranianos não têm amigos que lhes deem dinheiro ou apoio militar (a Rússia é mui amiga, só). Ainda assim, não é difícil perder o controle da situação no Oriente Médio.

Trump quer mandar no mundo e arrumar negócio para si e compadres por meio de extorsão e ameaça de tiro. Em alguns casos, no curto prazo, funciona, como na Venezuela, talvez em Cuba. O resultado geral é insegurança, fragmentação política mundial perigosa e rearmamento.


Reprodução de texto de Vinicius Torres Freire na Folha de São Paulo

O neoterrorismo dos notáveis


Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Jean Baudrillard insistia na anedota do devasso que pergunta sedutoramente à parceira: "O que você vai fazer depois da bacanal?" A suposição normalizada é a da orgia como clímax dionisíaco de um encontro sexual, mas na pergunta está implícito um "além" não formulado.

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total, que recobre praticamente a todos. "As pessoas trabalham com mais eficácia, consomem mais, comem com mais abundância e fazem amor com mais liberdade... mas o trabalho perdeu o sentido, o sexo está perdendo o seu, e a alimentação torna-se uma questão de higiene" (Raymond Ledrut, "La révolution cachée").

Na destruição permanente de todos os valores e de negação, por princípio, de qualquer legitimidade, o sexo perde de fato a referência externa (até mesmo o imperativo biológico da reprodução) que o sacraliza como encontro jubiloso de corpos por pressão do desejo. Não mais é "moderno" associá-lo à subversão antivitoriana (Sigmund Freud) ou à liberdade revolucionária (Wilhelm Reich).

Reduzido a relações contingentes, ele é uma função biologicamente racionalizada e instrumentalizada pelo mercado. Jacques Lacan, o psicanalista que fez furor e faz moda, era taxativo: "Não existe a relação sexual".

Mas como é temerário conceitualizar ou generalizar sobre a pulsão alheia, resta a hipótese de que tudo se limite a uma variedade do niilismo intelectual, despercebido pelo senso comum ou pela passividade da experiência cotidiana. Certo mesmo é que esse durável espírito de destruição exprime plenamente a época atual em muitas formas ativas, a exemplo do terrorismo.

Não o terror dos loucos de Deus, que buscam o paraíso no martírio, no massacre de multidões ou na explosão dos símbolos fortes de um poder. Mas o niilismo terrorista dos valores, com alvo fixo nas vísceras da moralidade, o neofascismo dos ricos. De fato, acontece à nata de uma elite bilionária transpirar aspectos insuspeitados da dimensão terrorista do capital, onde neoliberalismo e neofascismo são duas faces de uma mesma moeda.

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana ainda persistentes na totalização niilista. Trata-se do corpo feminino, antes reverenciado da puberdade à maternidade, agora temido pelo niilismo. De um lado, a ameaça do tecnicismo biológico. De outro, pretexto erótico para o terrorismo da diferença sexual (tortura, pornografia, humilhação) pela degradação do sexo e pela corrupção de menores. Versão neoliberal da burca talibã. Nesse ecossistema bestial fazem cadeia bilionários, gurus, TrumpClinton, príncipe, princesa. O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, literalmente: a polícia já bateu na porta e levou.


Reprodução de texto de Muniz Sodré publicado na Folha de São Paulo

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Trump quer Groenlândia porque sabe que aquecimento global é real


A tentativa trumpista de roubar a Groenlândia da Dinamarca prova que a direita, no fundo, sabe que o aquecimento global é real. Afinal, a ilha dinamarquesa só ganhou relevância política porque, graças ao aquecimento global, o oceano Ártico tornou-se muito mais navegável.

Em um artigo publicado na revista Nature Reviews Earth and Environment de março de 2024, os pesquisadores Alexandra Jahn, Marika M. Holland e Jennifer E. Kay mostraram que o aquecimento global criou uma possibilidade até outro dia impensável: um Ártico sem gelo durante boa parte do ano.

Suas estimativas indicam que, entre 2020 e 2030, já podem ocorrer setembros sem gelo no Ártico, algo que se torna bastante provável em 2050. Daí em diante o cenário depende cada vez mais de nossa capacidade de reduzir as emissões de carbono: com altas emissões, em 2100 pode haver um Ártico sem gelo entre maio e janeiro. Com emissões reduzidas, o período sem gelo cairia para agosto-outubro.

As consequências para o clima global são impensáveis, mas ninguém se importa com isso fora Marina SilvaGreta Thunberg e mais uma minoria ínfima de seres humanos que se recusa a cometer genocídio contra os próprios descendentes.

Como mostra a baixa eficiência eleitoral do ambientalismo, o ser humano médio aceita que seu neto definhe sob intenso sofrimento ainda na primeira infância, desde que o preço da gasolina não suba nesta semana.

Por isso, o derretimento do Ártico vem chamando atenção, sobretudo, pelas oportunidades econômicas e geopolíticas que descortina.

Um Ártico sem gelo é uma rota marítima muito mais rápida entre América do Norte, Europa e Ásia do que, por exemplo, o Canal de Suez. É uma alteração importante da geografia econômica do mundo.

Ampliam-se, igualmente, as possibilidades de guerra naval no extremo norte. Sempre foi, em tese, possível que Estados Unidos e União Soviética se invadissem pelo Ártico. Mas a experiência alemã no inverno russo (por comparação, uma primavera amena) fez com que nenhum dos lados se animasse com a ideia.

Quando se leva isso em conta, fica claro que o plano trumpista de roubar o Canadá faz parte da mesma visão de roubar terra no norte porque a catástrofe ambiental deve promover a valorização imobiliária da região.

Além disso, os ricos de Silicon Valley vêm investindo na mineração da Groenlândia. Muitos deles acreditam que a Groenlândia pode ser um bom lugar para instalar utopias capitalistas independentes de qualquer regulação estatal. O bilionário trumpista Peter Thiel, por exemplo, acredita que experimentos como esses seriam uma boa alternativa agora que "a democracia não serve mais à liberdade", o que se deveria, em grande parte, ao direito das mulheres votarem.

Nesse cenário, a Groenlândia deixaria de pertencer à Dinamarca, um país com indicadores de bem-estar muito melhores do que os dos Estados Unidos, para se tornar uma mistura de Banco Master com a ilha do pedófilo Jeffrey Epstein.

O "experimento de desregulamentação" de Epstein, aliás, funcionava nas Ilhas Virgens Americanas, o último território que os Estados Unidos compraram da Dinamarca. Em algumas questões importantes, as mulheres não tinham direito ao voto.


Reprodução de texto de Celso Rocha de Barros na Folha de São Paulo