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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Fuga de tesouros: Saqueadores de tumbas exploram o caos no Egito

O patrimônio cultural do Egito está em risco. Ladrões de túmulos, por vezes fortemente armados, estão aproveitando o caos político para saquear seus sítios arqueológicos mal guardados. As autoridades se sentem impotentes para detê-los e temem que tesouros antigos sejam perdidos para sempre.

A poucas centenas de metros das pirâmides de Dahshur, a terra marrom arenosa está cheia de buracos. Dezenas de poços foram escavados, com profundidades de até sete metros. Os ladrões de túmulos estiveram agindo. Neste subsolo em Dahshur está um dos mais antigos cemitérios em todo o Egito - túmulos possivelmente cheios de tesouros da época dos faraós. Os arqueólogos mapearam parcialmente o sítio, mas nunca exumaram seu conteúdo, como é o caso em muitos locais no Egito.

Desde os faraós e os romanos até os gregos, coptas e fatímidas, o Egito tem os traços de muitas civilizações antigas. Nem todos os tesouros foram descobertos e protegidos. O Egito admite que sempre teve que lidar com o problema de roubo de túmulos, mas desde a revolução de 2011, "este fenômeno tem aumentado ainda mais", lamenta Abdel-Halim Nur el-Din, professor de arqueologia e ex-chefe do Conselho Supremo de Antiguidades (SCA), a autoridade responsável por relíquias antigas e escavações arqueológicas no Egito. "Nós estamos perdendo nossa herança cultural, pedaço por pedaço", acrescenta.

Gangues de ladrões pilham à vontade

Em janeiro de 2011, o mundialmente famoso Museu do Egito no Cairo foi saqueado. Vândalos destruíram tesouros inestimáveis. As relíquias antigas valiosas, contudo, também desapareceram em pontos distantes da capital, devido à falta de fiscalização em locais históricos. Após o levante, o aparelho de segurança repressivo retirou-se, e a guarda do patrimônio histórico foi negligenciada.

Dois anos e meio depois, lentamente os policiais estão voltando às ruas, mas estão principalmente preocupados com os atuais protestos. Em outros pontos, os egípcios estão se comportando como se o Estado e suas leis tivessem deixado de existir.

O Exército colocou dois veículos blindados nas pirâmides de Dahshur para deter os ladrões de túmulos. Mas, até agora, os ladrões têm sido destemidos. "Queríamos pegá-los", diz um guarda em Dahshur que pediu para permanecer anônimo. "Mas aí abriram fogo contra nós com armas automáticas". Ele e seus colegas tinham apenas pistolas. Eles correram em busca de proteção, e os ladrões de túmulos continuaram com seu saque.

As gangues também estão ficando mais ousadas. Nas pirâmides de Saqqara, os saqueadores chegaram armados e limparam um depósito estatal. De acordo com o chefe do departamento do SCA responsável pelo depósito, este continha pequenas estátuas. Houve escavações ilegais até mesmo nos centros turísticos de Aswan e Luxor, atribuídos a quadrilhas organizadas. Em vez de pás, alguns trazem até pequenas escavadeiras.

"O roubo de antiguidades é um negócio muito rentável", diz o professor Nur el-Din. "O governo deve ter como prioridade impedir as escavações ilegais". O foco deve ser vigiar os locais onde estão as antiguidades, acrescenta. Para todo o resto, como escavação ou restauração, não há dinheiro de qualquer maneira.

Os artefatos roubados estão irremediavelmente perdidos

Mesmo assim, os roubos recentes não são a preocupação mais premente do SCA. Seus escritórios estão sofrendo com a escassez de energia comum no país. Os funcionários estão sentados no escuro, seus computadores desligados. A temperatura oscilando em torno de 43 graus Celsius tampouco está ajudando.

Osama Mustafa Elnahas chefia a divisão responsável pela recuperação de artefatos roubados. Ele tem consciência que há escavações ilegais em todo o país. "Elas se tornaram uma ocorrência diária desde o início da revolução", diz ele.

O SCA ainda não conhece a verdadeira extensão dos saques. Deborah Lehr, que dirige o Instituto Paulson, um grupo de estudos com sede em Chicago, sugeriu que o governo dos EUA ajudasse a investigação fornecendo imagens de satélite dos sítios arqueológicos. Mas essa ideia ficou empacada nas complicações burocráticas egípcias.

Quanto aos artefatos que já foram roubados, é provável que estejam irremediavelmente perdidos. Especialistas egípcios supõe que muitas das relíquias vão para o exterior –ou seja, além do alcance do Cairo- e são vendidas para colecionadores em casas de leilões internacionais.

"Para recuperarmos os artefatos, temos que provar que foram dados como roubados no Egito", diz Elnahas. Contudo, é difícil as autoridades conseguirem um inventário adequado das relíquias roubadas diante da velocidade com que os saqueadores estão operando atualmente.

Raniah Salloum, para a Der Spiegel, reproduzido no UOL. Tradutor: Deborah Weinberg

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Saques, arrastões e "ressentiment"


Saques, arrastões e "ressentiment"

A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome.
A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não ser de primeira necessidade. Ou seja, aparentemente, a violência da turba de 1789 talvez fosse justificada, mas a de 2011 não é.
No domingo passado, na Folha, Eliane Trindade escreveu sobre meninas de rua que praticam arrastões em São Paulo. Elas procuram produtos para alisar o cabelo, celulares cor-de-rosa e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos.
Alguém estranha que elas não prefiram uma comida boa ou uma roupa quente? Como disse uma menina, o que elas querem é ser bonitas (claro, nos moldes da cultura de massa). Será que, como a turba de Londres, elas seriam culpadas por não desejarem bens "de primeira necessidade"?
Não penso assim -e não é por indulgência com assaltos e arrastões. É porque, na nossa época, as "futilidades" são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789. Explico.
Em 1789, as diferenças eram de casta. Salvo filósofos perdidos na turba, as pessoas reunidas no protesto queriam manifestar sua indignação e satisfazer sua fome, mas não pensavam em mudar a ordem social e subir na vida. Na época, aliás, ninguém subia para lugar nenhum, as pessoas ocupavam o lugar que lhes cabia por nascimento.
À força de indignação e raiva, as coisas foram longe, até que ruiu o próprio regime de castas. Desde então, o que confere status não é mais o berço (nobre ou não) no qual a cegonha nos depositou, mas fatores que não dependem só do acaso: trabalho, riqueza, estilo, virtudes morais, cultura etc.
"Quem somos" depende de como conduzimos nossa vida e (indissociavelmente) de como ela é avaliada pelos outros. Para obter o reconhecimento de nossos semelhantes (sem o qual não somos nada), os objetos que nos circundam ajudam mais do que a barriga cheia; eles têm uma função parecida com a dos paramentos das antigas castas: declaram e mostram nosso status -se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados.
Podemos achar cafonas os objetos roubados pelas meninas e pelos saqueadores (o consumo de massa desvaloriza seu consumidor), mas o que importa é que eles roubaram objetos que lhes eram necessários para existir, para ser "alguém" no mundo. Isso não justifica nem saques nem arrastões; mas vale notar que, na nossa época, as futilidades são, no mínimo, tão relevantes e necessárias quanto era o pão para o pessoal de 1789.
Outro aspecto. Houve quem detestou os saqueadores londrinos por eles não estarem interessados em alterar a ordem social: roubaram para ter as mesmas coisas que a gente e, portanto, chegar exatamente ao lugar que nós ocupamos agora. Para usar uma expressão clássica em filosofia, os saqueadores seriam um caso de "ressentiment".
Nietzsche tomou o termo (e parte de seu sentido) de Kierkegaard. Modernizando, a ideia é a seguinte: "Não tive sorte ou, então, sou burro e preguiçoso, acho chato estudar e gosto de dormir. Sou invisível socialmente e invejo o bem-sucedido, que se pavoneia com seus objetos. Não quero me sentir culpado de minha condição; prefiro, portanto, acusar dela o bem-sucedido. Com isso, viverei minha mediocridade como se fosse o resultado da violência dos privilegiados, que gozam de tudo e não deixam nada para mim".
Enfim, para se consolar, o ressentido inventa uma moral (social ou religiosa) pela qual, no futuro, seu perseguidor será destronado pela revolta ou queimará nas chamas do Inferno.
Nos bares da "facu" de filosofia, nos anos 1970, colegas de direita acusavam a revolução proletária de ser apenas um projeto ressentido. Respondíamos que a revolução não era ressentida, porque ela não queria vingança, não queria substituir a burguesia, apropriando-se de seus brinquedos: seu intuito era inaugurar um mundo diferente, onde todos gozaríamos de novos prazeres.
Desse ponto de vista, os saqueadores de Londres, eles sim, seriam simplesmente uns ressentidos, não é?
Pode ser, mas, antes de responder, recomendo paciência: o que hoje parece apenas "ressentiment" pode ser a faísca de mudanças que nem suspeitamos. Afinal, o pessoal de 1789 só pedia pão, e olhe o que aconteceu...