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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Serra e a oportunidade perdida

No programa "Roda Viva", da TV Cultura, apresentado ao vivo na segunda-feira (6), o ministro das Relações Exteriores, José Serra, desperdiçou a oportunidade de explicar ao cidadão as prioridades e a estratégia de sua política externa.
Em um debate marcado, em boa parte do tempo, mais por discussões sobre política doméstica do que sobre política externa, Serra estava mais para primeiro-ministro do que para chanceler.
A expectativa era que o debate fosse mais denso entre entrevistadores e entrevistado acerca dos rumos de nossa diplomacia. Mas o tema "política externa" parecia um corpo estranho para a maioria.
No conjunto, a política externa ficou reduzida a um tripé voltado contra o eixo bolivariano, negociações comerciais como principal plataforma estratégica e a uma discussão improdutiva da "diplomacia ideológica" dos governos Lula (2003-2011) e Dilma Rousseff.
Se é certo dizer que a Venezuela não é um país democrático e que "onde há presos políticos não pode haver democracia plena", como o chanceler fez, Serra pôs o país numa condição em que precisará, por coerência narrativa, propor ou endossar a suspensão de Caracas de Mercosul, Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e OEA (Organização dos Estados Americanos).
E se essa é a métrica que define nossa ação de política externa, quais seriam então os critérios para julgar se Rússia e China, nossos parceiros nos Brics, são Estados democráticos? Há menos presos políticos na China e na Rússia –e em alguns países do Oriente Médio– do que nos vizinhos bolivarianos?
Essa contradição criará para o Brasil situações embaraçosas e abrirá flancos comprometedores em nossos interesses estratégicos.
Já a resposta à indagação sobre a aspiração do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU surpreendeu.
É inconcebível imaginar que o chanceler não esteja informado ou não tenha posição clara sobre essa postulação histórica, transformada numa espécie de "campanha permanente" da política externa brasileira de todos os governos e de qualquer coloração política de Getúlio Vargas a Dilma Rousseff.
Além disso, o chanceler passou a impressão de que o norte de nossa aspiração internacional se resumirá ao comércio. O comércio internacional deve ser parte da composição da grande estratégia de uma nação, não seu vetor principal, muito menos para um país da envergadura do Brasil, um ator de peso geopolítico nas relações internacionais.
Por fim, Serra caiu na movediça retórica da ideologização da política externa anterior.
Toda política externa carrega em si, por bem ou por mal, certo coeficiente ideológico, já que ela é formulada a partir de ideias e valores e sedimentada por preferências políticas –até porque políticas de Estado não brotam sozinhas.
Talvez o norte que se deveria dar a essa desgastada discussão fosse encontrar a trilha ideológica que não comprometa os imperativos de soberania e segurança nacionais e preserve os pilares e interesses estratégicos da política externa.
Foi uma oportunidade que poderia ter servido para transcender o nível paroquial em que se discute política externa no país. Ao fim, infelizmente, todos deixaram de ganhar: o programa, o chanceler, o telespectador e o Brasil.


Texto de Hussein Kalout, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Desordem de Kissinger

Henry Kissinger é incansável. Na semana passada publicou seu décimo quarto livro, "World Order" (US$ 18,83, no Kindle).
O homem comandou a política externa americana durante a década de 1970, no auge da competição contra o império soviético.
Desde o início, orquestrou golpes de mestre: aproximou-se da China e construiu uma ponte impensável com Cairo e Tel Aviv, enfraquecendo a União Soviética na Ásia e no Oriente Médio.
Ainda amarrou o Kremlin a um mecanismo formal de controle de armas nucleares.
Seu projeto de restauração do poder americano não parou por aí.
Quando ficou evidente que a guerra norte-americana no Vietnã estava perdida, foi ideia dele declarar vitória e bater em retirada.
Quando países emergentes do sul montaram uma coalizão para negociar preço de commodities em conjunto pela primeira vez, ele criou o clube dos mais ricos, mais tarde G7.
No processo, Kissinger fez coisas terríveis.
Apoiar Pinochet no Chile, o xá no Irã, Suharto na Indonésia, o apartheid na África do Sul, e nosso Médici foi café pequeno.
Os documentos recém-abertos sobre os desmandos em Camboja, Vietnã e Bangladesh revelam uma história de arrepiar.
Não é à toa que até outro dia havia grupos dedicados a caçá-lo pelos aeroportos do mundo, com ovos podres nas mãos.
Aos 91 anos, Kissinger é um velho obstinado, e "World Order" tem certo tom de resmungo.
Lê-se lá que o sistema internacional só pode ser estável, justo e afluente quando há um concerto de grandes potências dispostas a custear a ação coletiva e determinadas a respeitar diferenças mútuas, apesar de sua diversidade de interesses e valores.
Agora, esse equilíbrio estaria sob a pressão de quatro transformações: a incapacidade dos Estados Unidos de respeitar terceiros; a incapacidade da Europa de atuar como grande potência; a desconfiança de China e Índia a respeito dos rituais e práticas da diplomacia ocidental; e a politização do islã, com sua suposta ênfase na construção de uma autoridade transnacional "à la" califado em Meca.
Qual a conclusão? Ou nossos líderes constroem um novo concerto entre grandes potências ou caminharemos para o precipício da desordem total.
Fazê-lo será árduo, porque as novas tecnologias dificultam o trabalho da velha e boa diplomacia entre os grandes.
Essas ideias têm pedigree conservador e podem ser encontradas já no primeiro livro de Kissinger, o delicioso "Mundo Restaurado" (1957).
Encontram eco no trabalho das três melhores mentes de sua geração, quase nunca lidas em nossos claustros universitários: Raymond Aron, Hedley Bull e George Liska.
Trata-se de uma narrativa na qual há pouco espaço para o Brasil, que merece apenas quatro referências esparsas (por não ser grande potência e por nunca haver desenvolvido uma visão própria da ordem global).
Quem se preocupa com o futuro da política externa brasileira faz bem em ler o calhamaço tomando nota.


Texto de Matias Spektor, na Folha de São Paulo