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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Frase reacende debate sobre bissexualidade

Frase reacende debate sobre bissexualidade
Por MICHAEL SCHULMAN

"É claro que ainda gosto de garotas."
Essa foi uma das frases mais comentadas de um vídeo de Tom Daley que circulou no YouTube no mês passado, em que o mergulhador olímpico britânico de 19 anos anunciou que está namorando um homem.
Ele continuou: "Mas, quero dizer, neste momento estou namorando um cara e não poderia estar mais feliz".
A mensagem de Daley foi simples e singela, e os defensores dos direitos gays pareceram entusiasmados ao receber em suas fileiras um atleta assumido. (Os comentários mais ferinos vieram depois, quando o "cara" foi identificado pelos tabloides como o roteirista Dustin Lance Black, que é 20 anos mais velho.)
Mas Daley nunca usou a palavra "gay", e há a questão de ele ainda gostar de garotas. A revelação de Daley reacendeu um debate intenso na comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT).
A bissexualidade, assim como a síndrome da fadiga crônica, é muitas vezes considerada imaginária pelos que estão do lado de fora. Estereótipos não faltam: os bissexuais são promíscuos, mentirosos ou vivem "em negação". Eles são gays que não conseguem admitir sua sexualidade ou "lésbicas até a formatura" que estão procurando maridos.
"Essas reações são clássicas. Muitas pessoas não acreditam que a bissexualidade realmente existe e a consideram uma etapa transitória ou uma forma de 'estar no armário'", disse Lisa Diamond, professora na Universidade de Utah que estuda orientação sexual.
Estudos baseados na população, disse a doutora Diamond, indicam que a bissexualidade é mais comum que a atração exclusiva pelo mesmo sexo e que a libido feminina é especialmente aberta. Isso talvez explique por que a bissexualidade feminina é mais comum na cultura popular, desde "I Kissed a Girl", de Katy Perry, ao seriado "Orange Is the New Black", do Netflix.
Em um ensaio no "New York Times", no qual revelou seu relacionamento com outra mulher, a atriz Maria Bello escreveu: "Meu sentimento sobre ligação e parceria sempre foi de que eles são fluidos e evoluem".
Antes de se casar com Bill de Blasio, Chirlane McCray se identificava como lésbica, o que se tornou parte das credenciais progressistas da família do prefeito de Nova York.
A bissexualidade masculina, em comparação, é mais criticada, e grande parte do ceticismo vem dos homens gays.
O guru gay conservador Andrew Sullivan, em seu blog "The Dish", chamou a alegação de Daley sobre gostar de garotas de "um clássico mecanismo para facilitar a transição para sua verdadeira identidade sexual. Eu sei porque também fiz isso".
As lésbicas também podem ser temerosas. Mesmo depois que McCray se casou com De Blasio, algumas de suas "amigas lésbicas-separatistas", como disse a revista "New Yorker", recusaram-se a aceitar sua nova vida.
Esses pensamentos irritam os defensores da bissexualidade, que veem o viés contra os círculos gays como evidência de "bifobia". Muitas críticas neste sentido foram dirigidas ao colunista sexual Dan Savage. Em 2011 o blogueiro Chris O'Guinn acusou Savage de dizer "coisas claramente cruéis e insultantes sobre os bissexuais", incluindo seu comentário no documentário "Bi the Way", que dizia: "Quando conheço alguém que tem 19 anos e me diz que é bissexual, digo: 'Sim, tudo bem, eu duvido. Volte quando você tiver 29 anos e veremos'."
Savage respondeu com um vídeo para o "The Dish" no último verão. "Reconhecer que isso é uma coisa que acontece, que as pessoas brevemente se identificam como 'bi' antes de se assumirem como gays muitas vezes -nem todas as pessoas bi, mas os gays fazem isso- não deve ser considerado bifobia."
Daley e Bello, nenhum dos quais usou a palavra "bissexual", falaram sobre o ardor incontrolável de um único relacionamento, em vez de uma mudança de identidade. (Bello se contentou em se chamar de "qualquer coisa".)
Apenas algumas celebridades adotaram o termo. A atriz Cynthia Nixon, que se casou com uma mulher depois de ter filhos com um homem, disse ao "Daily Beast" em 2012: "Eu não uso a palavra 'bissexual' porque ninguém gosta dos bissexuais. Todo mundo gosta de xingar os bissexuais".
Mas evitar rótulos tem sua própria história entre os ativistas gays, que contaram com a visibilidade como arma contra a intolerância.
Quando um entrevistador da "Essence" mencionou a palavra "bissexual" para a nova primeira-dama de Nova York, McCray respondeu: "Eu sou mais do que um simples rótulo. Por que as pessoas insistem em rotular onde nos situamos no espectro sexual? Os rótulos colocam as pessoas em caixas, e essas caixas têm a forma de caixões".
No caso de Daley, a diferença pode ser geracional. Pessoas mais novas talvez não deem valor a rótulos como "gay" ou "bissexual", quando as comunidades que eles descrevem não são mais tão marginalizadas.
"Entre a geração mais jovem, vi muito mais abertura sobre a bissexualidade tanto em homens como em mulheres e, com frequência, uma rejeição a todos os rótulos", diz a doutora Diamond. "Eles são mais abertos para a ideia de que 'a sexualidade é complexa, e, desde que eu saiba com quem eu quero dormir, não importa como me chamem'."


Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Para (ou contra) o Dia das Crianças

Na semana retrasada, em Buenos Aires, uma criança de seis anos foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ela tinha nascido menino, Manuel, e declarava ser menina e princesa desde os 18 meses. A criança passa a se chamar agora Luana, nome que ela já tinha escolhido dois anos atrás.
Ela se vestirá de menina, brincará com as meninas e, na escola, frequentará o banheiro feminino. Esse detalhe não é irônico: pouco tempo atrás, nos EUA, uma criança transgênero da mesma idade de Luana, Coy Mathis, teve que recorrer à Justiça para obter o direito de frequentar o banheiro feminino de sua escola.
Simpatizo com os juízes norte-americanos e argentinos, porque sua decisão não foi fácil. Simpatizo ainda mais com os pais de Luana, de Coy e de todas as crianças pequenas que hoje são reconhecidas como transgênero.
Imagino o drama dos pais. Eles podem 1) proibir e coagir para tentar estancar a identificação com o outro sexo, 2) permitir e deixar a coisa se desenvolver sem vaiar e sem aplaudir ou, ainda, 3) tomar as dores de suas crianças e defender o direito de elas mudarem de gênero. Qual é a escolha certa?
Concordando ou não com a escolha dos pais de Luana e Coy, para apreciar sua coragem, basta se lembrar de que poucas décadas atrás ainda se prendia a mão esquerda atrás das costas das crianças canhotas na hora de elas aprenderem a escrever.
Qual será o próximo passo desses pais? Em tese, tentarão contrariar a puberdade administrando à filha o hormônio feminino que ela não produz. Mesmo assim, o corpo de Luana e Coy se tornará mais masculino do que elas esperam, e chegará a hora de recorrer à cirurgia estética e, por exemplo, implantar seios e depilar o corpo inteiro a laser. Quando?
Um recente artigo de Margaret Talbot, numa "New Yorker" deste ano (http://migre.me/giGK1), conta a história de Skylar, criança transgênero de menina para menino, que começou a testosterona e removeu os seios aos 16 anos.
Talbot também mostra que, sobretudo nos EUA, cresce fortemente o número de crianças pequenas que pedem para mudar de gênero.
Ora, a diferença de gênero é muito menos binária do que estamos acostumados a pensar, e acredito mesmo que haja espaço para um terceiro e um quarto gênero. Mas acho sintomática a diminuição progressiva da idade das crianças consideradas transgênero. Sintomática de quê?
Para autorizar uma mudança de sexo, psicólogos e psiquiatras recorrem a critérios sobre os quais é inevitável que se discuta até não poder mais. Mas, de qualquer forma, sejam quais forem os critérios, alguém acha que possamos aplicá-los em crianças de seis anos?
O que significa que um menino, aos dois anos, declare que ele é menina ou princesa? Mesmo que ele não desista nunca dessa ideia, ainda assim ele tem vários destinos possíveis. Talvez, no futuro, ele acorde a cada dia num corpo que lhe repugna, e sua vida só se resolva se ele se transformar concretamente em mulher. Mas uma outra possibilidade (de novo, entre várias) é que, no futuro e durante a vida inteira, ele esconda sua feminilidade e faça dela uma grande fantasia erótica.
A segunda via não é a repressão da primeira: é outra aventura, totalmente. Quem decidirá, diante de uma criança de seis anos, se ela é candidata à primeira ou a segunda via? Ou a outra via ainda?
É preciso idealizar loucamente a infância para incentivar ou satisfazer o desejo de mudar de gênero manifestado por uma criança de seis anos.
Pouco tempo atrás, a uma criança que dissesse suas vontades, só se respondia "cresça e depois a gente conversa". De repente, hoje, parece que o próprio fato de uma criança falar seja garantia da qualidade ("verídica") do desejo que ela expressa (talvez por isso, aliás, não saibamos mais o que fazer quando as crianças dizem que preferem dormir tarde, estudar outro dia etc.). Será que nos esquecemos de que uma criança inventa, finge, mente, que nem gente grande, se não mais?
Sábado é Dia da Criança. Ótimo --que seja um dia em que as crianças possam fazer uma ou outra besteira que lhes der na telha e em que os adultos gastem um dinheiro em presentinhos.
Mas péssimo se o Dia das Crianças for a celebração canônica da infância, que é um ídolo moderno especialmente perigoso. Perigoso? Sim. Espero que não seja o caso de Luana e de Coy, mas as primeiras vítimas de nossa idealização da infância são sempre as próprias crianças.


Texto de Contardo Calligaris, publicado na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Traição sem culpa é característica masculina? Especialistas analisam


Não é surpresa dizer que a nossa sociedade beneficia o homem com certa liberdade quando o assunto é traição. É como se a atitude dele fosse mais aceita e, muitas vezes, até valorizada, o que ajuda a levantar as suspeitas de que, quando eles traem, sentem menos culpa do que as mulheres. Contribui para essa ideia o fato de muitos acreditarem que o homem tem maior facilidade de separar sexo de sentimento. Mas será mesmo que traição sem culpa é uma característica masculina?
A pesquisa Mosaico Brasil, realizada em 2008 e coordenada pela médica psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que a infidelidade feminina cresceu nos últimos anos, enquanto a masculina, mesmo que na liderança, se mantém, de certa forma, estável.
De acordo com o estudo, que contou com 8.200 entrevistas em 10 capitais nacionais, 49,5% das casadas com idade entre 18 e 25 anos revelaram que traem seus maridos. Um salto em relação ao número de confissões de mulheres de 40 a 50: dessa faixa, 34,7% assumiram a traição. Apenas 22% das mulheres com mais 70 admitiram terem sido infiéis. 
Entre os homens de 18 e 25 anos, cerca de 65% se dizem infiéis. Na faixa entre os 40 e 50, o número aumenta para aproximadamente 70%. Já entre os 60 e 70, o índice é de cerca de 75%.
Embora os homens ainda se digam muito mais infiéis do que as mulheres, tal estatística mostra que a nova geração feminina tem maior tendência a viver relacionamentos às escondidas e revela que a falta de culpa deixa de ser uma característica tipicamente masculina. "Hoje em dia, elas também traem sem culpa nenhuma. Vejo isso no consultório", afirma a psicóloga e terapeuta sexual Carla Cecarello, coordenadora do Projeto AmbSex (Ambulatório de Sexualidade), entidade voltada a pesquisa e orientação do público a respeito de temas da sexualidade.
Isso não significa somente vulnerabilidade por carência e nem que ela esteja necessariamente em busca de outro homem para se envolver e terminar o seu casamento. A mulher está mais exigente e já percebeu que é raro achar um único homem que atenda às suas diferentes expectativas. "Elas querem se sentir felizes, amadas, colocar em prática seus desejos sexuais e, muitas vezes, estão atrás de algo que o parceiro não oferece a elas", afirma Carla.
Outro motivo que pode levar a essa mudança de comportamento é que, hoje, a mulher tem vida própria e, por estar no mercado de trabalho, tem maiores oportunidades de flerte, segundo a psicóloga e terapeuta sexual Arlete Gavranic, coordenadora do curso de Sexualidade Humana do Instituto ISEXP (Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática). "Essa mulher não carrega muita culpa, pois administra melhor o que está fazendo", diz ela.

Incentivo à traição

Nossa cultura atual também acaba incentivando a infidelidade. "Toda propaganda nos diz para fazermos o que for preciso para sermos felizes e obtermos nossa cota diária de orgasmos múltiplos", diz Priscilla.
A rede de encontro extraconjugais Ashley Madison, presente em 26 países, está aí para confirmar: o site, inaugurado no Brasil em 2011, promove encontro sigilosos para quem quer viver experiências fora do casamento.
Além disso, há uma abordagem direta de estabelecimentos que estimula as traições. "Motéis ao lado de escritórios que fazem promoções na hora do almoço, por exemplo, são quase um convite à infidelidade", diz Arlete.
Outro exemplo é o Bang with Friends, polêmico aplicativo do Facebook que dá a possibilidade de convidar amigos para relações sexuais. Apesar de não ter sido criado para incentivar a traição, o meio facilita a busca pelo sexo casual e tem sido adotado também por pessoas casadas.
Com tantas ofertas de prazer, as possibilidades de pular a cerca aumentaram e a culpa já não é mais um grande peso nem para os homens, nem para as mulheres.




sábado, 22 de janeiro de 2011

A biologia do sexo no caso John / Joan

Após ler esta postagem, preocupo-me de ver que a galera segue crendo equivocadamente em teses de que gênero e a identidade sexual seriam construção social, não algo biológico. Tal ideia, em outros tempos, gerou problemas gravíssimos, como o caso do menino canadense Bruce Reimer, que teve o pênis estraçalhado por uma circuncisão e foi criado como uma menina.

E por que Bruce foi criado como uma menina? Pelo fato de os pais terem dado ouvidos a um tal de John Money, psicólogo que acreditava na tal determinação social de gênero e identidade sexual. E lá foi Bruce ser transformado em Brenda, com direito a plástica genital e remoção dos testículos aos 17 meses de idade. O tal John Money inclusive escreveu um artigo descrevendo a quantas andava Brenda ex-Bruce aos 9 anos, como se fosse um sucesso. O caso tornou-se conhecido entre os profissionais de saúde como "o caso John/Joan" e era tido como comprovação da tal teoria e de que seria possível a que se criasse alguém que nasceu de um determinado sexo como se fosse de outro.

Porém, chegou a puberdade e os próprios pais notaram que Brenda não seguia a normalidade das meninas que tinham os mesmos 13 anos. Era rebelde, considerada masculinizada e vítima de ridicularização na escola, o que gerou solidão. O psicólogo pediu para que os pais não contassem que ela tinha nascido menino, mas é de se imaginar que a situação em que aquele adolescente estava mostrou que a intuição dos progenitores era mais acertada que a dos profissionais.

Com isso, Brenda passou a ser David, casou-se e adotou crianças, vivendo uma existência feliz e, mais ainda, lutando junto com o irmão Brian para que se combatesse a tão equivocada tese de John Money, que vendia "o caso John/Joan" como um sucesso que nunca foi. Porém, sua vida nunca foi normal, sendo afetado pela morte (não se sabe se por overdose ou suicídio) de seu irmão gêmeo em 2002. Dois anos depois, David se suicidou, após período de depressão.

Antes disso, porém, é de se perguntar sobre os motivos que fizeram o tal psicólogo acreditar que gênero não é algo inato. Fala-se que ele teve sucesso ao lidar com pseudo-hermafroditas, mas isso não quer dizer absolutamente nada quando a abordagem envolve David Reimer, uma vez que aqui estamos falando de um garoto que nasceu com a genitália normal e foi vítima de um erro cirúrgico daqueles. Fico aqui crendo que é mais um daqueles casos de "se a teoria não condiz com os fatos, vamos mudar os fatos para que sejam condizentes com a teoria".

Mais recentemente, uma pesquisa sueca de morfologia cerebral, com o uso de ressonância magnética, mostrou que os cérebros são diferentes entre os sexos e também demonstrou que o cérebro dos homossexuais assemelha-se morfologicamente ao de um heterossexual de sexo oposto. Portanto, não há nada de construção social de gênero, como o próprio caso de David Reimer demonstrou muito antes, mas sim que o gênero é biológico. Isso acaba por corroborar algo que sempre ouvi dos homossexuais que conheço, sobre eles se sentirem como tais desde que eram pequenos.

Abaixo seguem vídeos sobre o caso David Reimer. Qualquer um de nós entende o motivo do olhar permanentemente triste do rapaz, mesmo sendo imagens de um tempo em que ele e Brian estavam vivos, bem como as razões dos transtornos que sofreram em suas (curtas) vidas conturbadas. Porém, vou lhes pedir que comparem com o olhar vívido de David quando voltou a ser menino e ainda não sabia que seu caso era vendido como algo positivo por um psicólogo que, para mim, nem de longe é digno de tal nome.



Visto no blog do Luís Nassif, que linca para vídeos relacionados ao caso